Presidenciais não se jogam, ganham-se
Assim fez Seguro. Após o plano inicial de rejeitar assumir-se de esquerda e socialista, conseguiu corrigir o posicionamento a tempo de se destacar enquanto candidato agregador do centro-esquerda, apelando ao voto útil de toda a esquerda por falta de comparência dessa área política. A estratégia foi usar a arma mais poderosa dos neo-moderados – o silêncio. No meio da batalha, apenas assistiu aos golpes disferidos entre os seus oponentes, saindo ileso no final. Revitalizado, refrescado, sem participar. É difícil agradar a todos, mas Seguro, depois de dez anos de ausência da vida política, conseguiu a proeza de ficar em primeiro sem agradar a ninguém.
O adversário de sonho para Ventura, que apresentou uma nada inocente versão mais razoável de si na primeira volta, não tivesse ele o inegável faro político que tem. Não que precisasse dessa moderação para se conseguir apurar para a final, mas foi o começo da preparação para a eventual chegada à volta decisiva. A divisão esquerda-direita de que precisa para alguma réstia de esperança em derrotar a enorme taxa de rejeição que enfrenta. Necessita da direita moderada, e este será um teste importante a essa fração do eleitorado. Descobriremos o quão à direita estará a direita disposta a ir para resistir ao socialismo envergonhado de Seguro, e isso definirá o cenário político português para os próximos anos. Mesmo perdendo, Ventura cumprirá os objetivos da candidatura – o já autointitulado líder da direita deixou o primeiro-ministro em maus lençóis, provavelmente a prazo.
Sente-se a tensão do momento. O nervoso apelo ao posicionamento pela urgência dos agentes políticos (comentadores incluídos) em escolher e exigir escolha, principalmente das outras candidaturas, como se estivéssemos perante uma opção que não é legítima. Já condenaram Montenegro que, após cair de forma estrondosa com o seu candidato, opta por adiar a estocada final do seu suicídio político (escolher seria fatal), esperando pela decisão dos portugueses acerca do que consideram melhor para si. E afinal, como diria Seguro, o moderado do extremo-centro, quando entre a espada e a parede: “qual é a pressa?” Faz-se de Seguro, que é o mesmo que se fazer de morto, na esperança de que alguém se enterre antes de ser, ele próprio, enterrado. É curioso que o silêncio tenha resultado tão bem para o vencedor da primeira volta, mas seja tão ensurdecedor no primeiro-ministro. A ansiedade tem sido promovida por quem se refugiou na candidatura que inicialmente recusou, ao sentenciar de fascista qualquer um que não rejeite de forma perentória o voto contrário. São os mesmos que serviram de catalisador para os resultados que têm ocorrido. Os que não hesitariam se a escolha fosse entre um candidato do centro-direita e da esquerda radical. Para Seguro, que em princípio terá a vitória garantida por imunidade à narrativa antissocialista (sempre foi da franja moderada do PS), talvez seja melhor não se deixar levar por este comportamento divisivo, respeitando a democracia e todos os eleitores.
Passar a vida a gritar “lobo” ainda lhes dará o que, no fundo, gostariam mesmo – assistir à ida da direita moderada até onde nunca foi. Consolariam a moralidade. Perderiam, mas seria como ganhar.