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Propaganda

Diogo Nuno Mesquita
Opinião \ terça-feira, setembro 08, 2026
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A forma como se imaginam heróis em circunstâncias trágicas e perversas, com a certeza da sua exemplar integridade, é a evidência de que estão tão desprevenidas que nem sequer se conhecem.

Comportam-se como se comportam por saberem que são vulneráveis e são vulneráveis por se comportarem como se comportam. É a previsibilidade que facilita a sua manipulação. Pessoas que juram, a pés juntos e indignadas, que nunca se resignariam perante algo tão condenável como o Holocausto têm na indignação o reflexo da sua ingenuidade. A forma como se imaginam heróis em circunstâncias trágicas e perversas, com a certeza da sua exemplar integridade, é a evidência de que estão tão desprevenidas que nem sequer se conhecem.
Os que não têm dúvidas de que se insurgiriam contra a perseguição aos judeus durante o genocídio, como se fossem melhores do que as imensas pessoas que na altura fecharam os olhos às atrocidades, vivem, na maioria dos casos, uma ilusão. Estas, que fecharam os olhos, mesmo não tendo acesso aos horrorosos detalhes do que se vivia nos campos de concentração e noutros locais, tinham informação mais do que suficiente para se poderem revoltar se não estivessem cegas por uma propaganda que desumanizava um povo e apelava aos piores sentimentos que podem existir num ser humano. Não se pode ter o atrevimento de pensar que se teria feito diferente por muito que a aberração e todos os seus trágicos contornos sejam monstruosos e causem indignação. Infelizmente, essa moralidade que o ego convoca é uma idealização que não corresponde aos nossos normais padrões de comportamento. Haveria certamente exceções, e há gente extraordinária, mas, de forma geral, e lamento informar a cruel realidade, a maioria não seria melhor na mesma circunstância. Não teria outra elevação; antes aproveitado, como fez a maioria daquele tempo, e desresponsabilizando-se da barbaridade, pegado nos despojos e oportunidades que a circunstância apresentava. Foi um momento da história revelador de traços humanos que merecem cautela e reflexão: manipuladores mal-intencionados que se tornaram poderosos sempre existiram, mas só ascenderam ao poder com tanta frequência porque conseguiram manipular as pessoas. E sempre houve vulnerabilidade; ainda mais quando o resultado se tornava de alguma forma conveniente e deixava entrever vantagens pessoais. Cedeu-se espaço como se valores e humanidade tivessem preço.
O Holocausto é um dos mais dramáticos exemplos do seu uso, mas a propaganda não é exclusiva de nenhuma ideologia política. É um instrumento de todos para todos, utilizado de acordo com a utilidade que possa ter o comportamento dos outros.

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