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Somos peões no xadrez político

Sara Martins Silva
Opinião \ terça-feira, maio 16, 2023
© Direitos reservados
O silêncio de Magalhães à pergunta sobre qual será o legado do seu sucessor grita um estridente vazio.

No passado mês de abril, o Jornal de Guimarães e O Conquistador publicaram uma entrevista com o antigo presidente da Câmara de Guimarães, António Magalhães, onde este deixa críticas mordazes ao atual executivo. As notícias sobre a sua morte política foram manifestamente exageradas. Magalhães tem ainda uma voz ativa e é capaz de agitar as águas.

Não acho que António Magalhães tenha sido um bom presidente de Câmara. Faltava-lhe algo tão essencial como cultura democrática. Além disso, para as Taipas, os mandatos de Magalhães foram catastróficos, com decisões que afetaram seriamente o futuro da região, como é disso exemplo a renúncia ao nó da autoestrada ou a recusa em ceder a concessão das termas ao investimento privado, acabando por promover Vizela em detrimento das Taipas. Preferir manter a Turitermas como incubadora de socialistas ao invés de deixar que fosse um motor de crescimento da região, que, por ego e vingança, queria ver definhar, foi talvez o maior erro político de Magalhães.

Como taipense, a minha opinião relativamente ao antigo presidente não poderia ser outra. No entanto, sou também capaz de, como vimaranense, admitir que os 24 anos de presidência de António Magalhães marcaram indelevelmente a identidade da cidade (não do município). Na entrevista ele assume a cultura como um dos grandes bastiões dos seus mandatos e, de facto, Guimarães atingiu um lugar de destaque no panorama cultural nacional.

Da entrevista percebe-se que os problemas do concelho - nas palavras do antigo autarca “Guimarães não tem acompanhado o ritmo de crescimento das três cidades próximas de nós: Famalicão, Braga e Barcelos” -, são resultado das más políticas dos últimos 10 anos, correspondentes à governação de Domingos Bragança. O silêncio de Magalhães à pergunta sobre qual será o legado do seu sucessor grita um estridente vazio. Para Magalhães, o seu antigo braço direito, Domingos Bragança, não deixará um legado, e esta constatação merece uma reflexão importante por parte dos vimaranenses: se os socialistas dizem que não são competentes, se calhar já se mudava de ares partidários…

Magalhães implica também a oposição nas suas declarações. Segundo o ex-presidente, no tempo dele a oposição era melhor, era “acutilante”, “inflamatória” e vigilante, provocando diversas inspeções e auditorias ao seu trabalho, coisa que não acontece agora. Em apenas dois parágrafos, Magalhães chama ineficaz à oposição, deixa um rasto de suspeição sobre as atuações do atual executivo, dizendo que deveriam ser auditadas, e fá-lo vangloriando-se do seu próprio trabalho.

Mas Magalhães vai ainda mais longe. Consciente de que a fratura do PS vimaranense é o principal obstáculo nas próximas eleições autárquicas, tenta dividir também a oposição, lançando o nome de André Coelho Lima como “melhor” candidato que o atual presidente do PSD Guimarães, Ricardo Araújo, ao mesmo tempo que anuncia o seu apoio a Ricardo Costa indicando-o como melhor candidato socialista.

Aristóteles defendia que a política tinha como objetivo a felicidade humana, o papel da política devia ser servir os cidadãos, assegurando que tenham uma vida feliz. Ao olhar para a política nacional percebemos que a mesma está muito longe do conceito aristotélico, resumindo-se a um combate de egos e lutas fratricidas pelo poder, como é visível nesta entrevista. As peças do xadrez político das próximas eleições autárquicas estão já em movimento e, como em qualquer jogo de xadrez, os peões, ou cidadãos, são sempre os sacrificados. O que esta entrevista também nos diz, nas entrelinhas, é que nós, vimaranenses, somos o que menos importa na política local.

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