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Veranear

Francisco Brito
Opinião \ quarta-feira, setembro 20, 2023
© Direitos reservados
Este fluxo, constante até aos dias de hoje, levou a que décadas mais tarde um observador atento visse na Póvoa “Guimarães em calções” (peça de vestuário que seguramente não se usava no século XIX).

Numa altura em que para a maioria o período de férias já terminou, creio que será interessante recordar como era vivido este período pelos vimaranenses de outros tempos. Antes de partilhar os meus apontamentos convirá recordar que as férias, como as conhecemos hoje (um direito a um determinado período de descanso anual), são uma realidade relativamente recente, fruto das alterações legislativas implementadas após o 25 de Abril de 1974. Portanto a descrição que se segue retrata um outro tempo, em que a existência de um período de descanso anual era, salvo algumas excepções, um exclusivo das classes mais abastadas.

De alguns apontamentos (não sistemáticos) que ao longo dos anos recolhi fundamentalmente em periódicos, posso partilhar algumas informações sobre as férias dos vimaranenses ao longo da segunda metade do século XIX e início do século XX. Quem neste período tinha possibilidades para veranear (para as praias e termas ou para o campo) eram por regra os grandes proprietários, médicos, advogados, notários, grandes comerciantes e industriais, quadros médios e altos das empresas locais e os poucos funcionários públicos com boas posições na administração local.

Passando para um registo informal, apresento desde já um “top” das praias mais frequentadas pelos vimaranenses no período em análise:

1 – Póvoa de Varzim (onde entre muitos outros vimaranenses veraneavam o Conde d’Azenha, o Conde de Lindoso ou o industrial Pedro Pereira da Silva Guimarães, da Real Fábrica de Caneiros).

2 – Vila do Conde (onde pontificava o Conde de Margaride que por lá tinha propriedades e casa de férias, coisa rara naquele tempo)

3 – Foz do Douro (onde passavam o Verão figuras como o Conde de Vila Pouca, o Padre Abílio Augusto de Passos, o notário José Joaquim de Oliveira, entre outros).

A Póvoa de Varzim assume nesta lista um lugar de destaque. Era, seguramente, a praia mais frequentada pelos vimaranenses. Mesmo quem se estabelecia em Guimarães por motivos profissionais, como o Professor Martin Braun (da Escola Industrial Francisco de Holanda), rapidamente replicava os costumes das gentes de Guimarães, fazendo férias naquela estância balnear. E era também um local de excepção, pois parece ser uma das poucas praias onde as classes mais desfavorecidas “iam a banhos” (por regra por razões de saúde).

Nos meses de Verão, para a Póvoa havia até uma carreira diária (com duas saídas por dia de Guimarães). Este fluxo, constante até aos dias de hoje, levou a que décadas mais tarde um observador atento visse na Póvoa “Guimarães em calções” (peça de vestuário que seguramente não se usava no século XIX).

As termas eram também umas das opções mais comuns para as férias dos vimaranenses nas últimas décadas do século XIX e no início do século XX. Fora do concelho de Guimarães é comum encontrarmos referências às Caldas do Gerês. Dentro de portas, Vizela e as Caldas das Taipas satisfaziam as necessidades dos veraneantes. Ambas combinavam a oferta termal com o facto de muitos dos frequentadores das termas possuírem quintas nas imediações daquelas localidades. Ainda assim não faltavam hotéis em ambas as estâncias termais. A título de curiosidade acrescento que, apesar da proximidade da cidade de Guimarães, titulares como a Condessa de Santa Luzia ou o Conde de Vila Pouca possuíam casas em Vizela e nas Taipas que, segundo se depreende da leitura dos periódicos, ficariam no centro daquelas localidades (possivelmente construídas ou adquiridas com a finalidade de servirem de casas de férias) e que para ali se mudavam de armas e bagagens durante o estio.

“Para o campo” é uma designação bastante comum nos jornais da época para indicar que um determinado individuo foi para a sua quinta ou propriedade rural. Investir num pequeno terreno ou ser senhor de uma grande quinta era então uma ambição (e uma necessidade) comum a diferentes classes sociais. Entre Julho e Setembro, pela altura do calor ou das colheitas, os vimaranenses peregrinavam para as suas propriedades (que tanto podiam ser fora do concelho como no actual Bairro de Nª. Senhora da Conceição) em busca de algum sossego, de um ar mais fresco e do que a terra tinha para oferecer. Transpor as barreiras do que então era a cidade de Guimarães era o suficiente para conseguir algum repouso e ser notícia num jornal!

Mas não era apenas dentro de Portugal que os vimaranenses faziam férias. Aqueles que a um determinado nível cultural aliavam possibilidades económicas viajavam ocasionalmente para o estrangeiro. Partilho algumas notícias da época a título meramente exemplificativo:

- Religão & Patria de 28.08.1887: “Ja chegaram a esta cidade os cavalheiros que tinham ido a Madrid assistir as festas de Santo Isidro”

12.10.1889: “Pelo correio recebemos o seguinte postal: Snr redactor(...) do alto deste grandioso monumento a que Mr. Eiffel deu o seu glorioso nome saudamos os nosso conterrâneos na pessoa de V. – J. Minotes e Luiz Martins”.

Comércio de Guimarães de 15.05.1900: “Tomaram parte na noticiada peregrinacao a cidade histórica [de Roma] as seguintes snras.: D. Francisca Braancamp, D. Henriqueta de Melo Sampaio (Pombeiro) e os cavalheiros snrs.: Henrique Cardozo de Menezes, Conego Bacelar, Rvdos. Lima e Ramos, Abade de Tagilde e o sr. Joao de Oliveira Bastos"

15.06.1900: “Chegaram do estrangeiro os últimos dos nossos peregrinos que, depois de visitarem Roma tinham alargado o seu passeio por cidades vizinhas terminando alguns em Paris. Entre outros chegaram os snrs. Prior do Souto, Abade de Tagilde, Pe. Francisco de Lima, João de Oliveira Bastos e família do sr. Barão de Pombeiro”.

Outras notícias (que recordo de memória) dão-nos nota de viagens feitas por jovens para conhecer a Europa, a Inglaterra, a França, etc.

 

Com referi no início do artigo, grande parte destas informações foram retiradas de publicações periódicas. Esse tempo acabou. Mas está tudo nas redes sociais, dando aos historiadores do futuro ou aos coscuvilheiros do presente um conjunto quase inesgotável de fontes sobre esta matéria.

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