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Vitória, o perigo da resignação

Pedro Carvalho
Opinião \ terça-feira, agosto 18, 2026
© Direitos reservados
Um clube com a história, a dimensão e a massa associativa do Vitória não pode transformar a sobrevivência num projecto.

Morreu Emílio Macedo da Silva, aos 73 anos. Presidente do Vitória entre 2007 e 2012, ficará associado, entre outros momentos, ao terceiro lugar alcançado na época de 2007/08, igualando então a melhor classificação da história do clube na I Liga.

Independentemente das divergências que o seu percurso possa ter suscitado, e dos erros que naturalmente lhe possam ser apontados, a história de um clube também se constrói através daqueles que, em determinado momento, assumiram a responsabilidade de o servir. A Emílio Macedo da Silva, o meu respeito e a minha homenagem. Que descanse em paz.

Talvez seja, aliás, particularmente oportuno começar esta crónica evocando alguém que presidiu ao Vitória num tempo em que o clube ainda parecia acreditar, sem constrangimentos ou complexos, na possibilidade de aspirar a mais, apesar da antecedente despromoção. Porque é precisamente essa ambição que hoje me parece progressivamente diluída. Não apenas na equipa ou no discurso de quem dirige, mas também — e talvez de forma mais inquietante — entre os próprios adeptos, que se foram habituando a exigir menos e, consequentemente, a aceitar demasiado pouco.

Este início de campeonato impõe, por isso, uma pergunta elementar: afinal, que Vitória temos?

É manifestamente prematuro formular juízos definitivos. A época acaba de começar e existe tempo para corrigir insuficiências, consolidar processos e fazer crescer a equipa. Ainda assim, este arranque titubeante deixa demasiadas interrogações sobre aquilo que podemos legitimamente esperar: uma equipa capaz de disputar os lugares cimeiros ou mais uma temporada em que a ambição será proclamada com maior facilidade do que demonstrada?

Algumas fragilidades parecem, desde já, evidentes.

A defesa necessita de ser reforçada. Falta, sobretudo, um defesa-central experiente, capaz de acrescentar liderança, autoridade e estabilidade a um sector que ainda não transmite a segurança indispensável. Do mesmo modo, parece evidente a necessidade de um avançado que ofereça qualidade, presença na área e, acima de tudo, golos.

Não se trata de retoques marginais. São lacunas susceptíveis de estabelecer a fronteira entre uma equipa verdadeiramente competitiva e uma equipa apenas suficiente.

Mas há uma questão mais profunda, e porventura mais preocupante: a fasquia baixou.

Baixou no clube, tornou-se perceptível no discurso e instalou-se, perigosamente, entre os adeptos.

Ao longo dos últimos anos, fomos sendo confrontados com uma narrativa que, de tão repetida, adquiriu quase o estatuto de fatalidade: não há dinheiro; é necessário vender; é preciso formar; é indispensável esperar; alcançar a Europa constitui, por si só, uma proeza.

Cada uma destas realidades existe e não pode ser ignorada. O problema começa quando se transformam no nosso fado e a elas nos resignamos.

Pouco a pouco, fomos normalizando aquilo que, não há muitos anos, consideraríamos manifestamente insuficiente. E essa mudança de percepção talvez seja mais nociva para o futuro do Vitória do que qualquer limitação conjuntural.

Compreender as dificuldades financeiras é uma coisa. Fazer delas um horizonte permanente é outra.

O Vitória não pode permitir que a sua condição económica se converta numa justificação antecipada para a ausência de ambição. Pelo contrário. Quanto mais limitados são os recursos, maior tem de ser a competência na construção do plantel, mais rigorosa a identificação dos jogadores e mais clara a definição do caminho que se pretende seguir.

Ninguém exige ao Vitória que dispute o título. Exigir que procure aproximar-se dos lugares cimeiros é, porém, não apenas legítimo como necessário. Exigir que entre em cada temporada determinado a superar a anterior. Que saiba antecipar as saídas dos seus melhores jogadores. Que tenha soluções preparadas. E, sobretudo, que não comece cada época enumerando aos adeptos tudo aquilo que não pode fazer.

Um clube com a história, a dimensão e a massa associativa do Vitória não pode transformar a sobrevivência num projecto.

Ainda há tempo. Tempo para esta equipa evoluir, para reforçar o plantel, para corrigir decisões e para demonstrar que as hesitações deste início de campeonato são apenas isso: hesitações de princípio de época.

Há, contudo, algo que não pode continuar a ser sucessivamente adiado: a recuperação da exigência.

Porque talvez o legado mais inquietante dos últimos anos não esteja apenas nas dificuldades financeiras, nas classificações ou nas oportunidades desperdiçadas.

Talvez esteja no facto de termos começado a olhar para tudo isto como normal.

E não é.

Pedro Miguel Carvalho

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