Voar
Apesar de sempre ter sabido que era por mim, perdi-me na ignorância de tudo saber que me permitiu desconfiar se terá sido mesmo assim. Não sei se algo se alterou e quando poderá ter acontecido, mas terá sido nesse momento que passou a ser também por si. Não lhe posso dizer nada que já não tenha sido escrito, mas há mais de dois anos que é um gosto escrever esta crónica por cima de tudo o que me ocupa nesta vida cheia de coisas boas para lá das más.
Quero-lhe falar de como isto se dá; aproveita e vai-me conhecendo. Ou não, que nem eu sei se isso será conhecer-me. Começo a divagar, devagar, sem querer, espero a voz de uma aceleração interior que me carateriza aos olhos dos que me conhecem bem. Às vezes sai precipitada, mas esforço-me por apanhá-la – enquanto me der saberei estar vivo, e foi sempre assim. Saía do quase nada um golpe de asa que se repetia enquanto eu ainda contemplava o anterior. Nunca soube o que lhe fazer. O que era. A quem dizer. Nasci com um jeito que tentei proteger. Algo que se impunha desordeiramente e pelo qual devia ser grato apesar de parecer maldição.
Por ele alinhei tudo o resto. Organizei o que podia para o conseguir acompanhar. Tentei discipliná-lo para aparecer à hora a que eu o esperava e assim se moldar, mas nunca o consegui domar. Saía quando queria. Nunca tolerou regras e tive de aceitar as horas a que queria voar. Forçava-me a observar, tão livre como um pássaro numa gaiola mal fechada que, num desses golpes que virasse de sorte, escapava à graça de um conforto parecido a felicidade para encontrar algo mais. Perdia o controlo da sempre presente tempestade que antes tentara harmonizar e, quando regressava, era engolido pelo monstro que ali se alimentara de ausência. Não me podia distrair. Num mundo de grandes e pequenos, bons e maus e tantos ângulos, exigia-me a educação de poder ouvir qualquer coisa sem perder o controlo, e o pássaro já não voava como antes. Diziam-me que isto era um lugar competitivo e a gaiola fechava-se cada vez melhor. Queriam-me sem falhas perante um mundo falhado e o pássaro já nem tentava sair. A única coisa que desejava era um caráter que me fizesse merecedor do que queria ser – que me preparasse para despedidas sem cobardia quando ele voasse, capaz de enfrentar o monstro que sempre me esperava no seu regresso.
Faço-o com total desprendimento. Desinteressadamente, como tudo o que é belo. Se mensalmente lê esta crónica, deixo-lhe o meu agradecimento. Como sempre que ele voa, enquanto me apresento, me despeço. Se o pássaro entretanto voar, será só por mais um mês. Senão, escreverei qualquer coisa.