Araújo diz receber “qualquer embaixador acreditado” após visita de Israel
A visita do embaixador da Israel em Portugal, Oren Rozenblat, à Câmara Municipal de Guimarães, divulgada pela autarquia neste domingo como uma ocasião para “explorar novas possibilidades de colaboração em áreas estratégicas para o desenvolvimento do território”, mereceu o comentário do presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Ricardo Araújo, e as críticas por parte dos aparelhos locais do Bloco de Esquerda e da Juventude Socialista.
Apresentada, neste domingo, como oportunidade para dialogar acerca do desenvolvimento de soluções tecnológicas para a modernização dos serviços municipais, da preparação para situações de emergência, do investimento da TAGlobal Portugal, unidade industrial da empresa israelita de dispositivos médicos que se vai instalar no Avepark, e ainda de inteligência artificial, desenvolvimento de software, a indústria avançada, setor espacial e inovação aplicada ao setor têxtil, a visita gerou inúmeros comentários polarizados nas redes sociais do município, uns de aplauso e outros de repúdio, por considerarem que o estado israelita é autor de “um genocídio” em Gaza, território palestiniano sob a autoridade do movimento islamista Hamas.
Confrontado com a polémica, Ricardo Araújo afirma que 13 embaixadores estiveram em Guimarães ao longo da semana anterior, tendo alguns deles sido recebidos em reunião. Foram os casos de Carolina Ache Batlle, embaixadora do Uruguai, Federico Barttfeld, embaixador da Argentina, de Emilia Fabián, embaixadora da Hungria, e de Bruno Figueiroa, embaixador do México, bem como de uma delegação da Guiné-Bissau.
O presidente de Câmara vincou que estas têm sido “das poucas iniciativas fora de Lisboa que reuniu tantos embaixadores num município”, o que coloca Guimarães “no topo da agenda nacional e internacional”, com o reforço da cooperação de Guimarães com a rede internacional e a possibilidade mais turistas se deslocarem ao território, e disse estar disponível para receber qualquer embaixador devidamente acreditado de países com os quais Portugal tenha “relações diplomáticas”.
"Faço diligências no sentido de receber embaixadores. E recebo embaixadores que também solicitarem essas audiências. Na semana passada, tivemos muitos embaixadores a solicitarem reunião com o presidente de Câmara. Receberei os embaixadores que estão acreditados em Portugal. Portugal tem relações diplomáticas oficiais através dos seus representantes nesses países no nosso país. Continuarei a receber os embaixadores com quem Portugal tem relações diplomáticas, que estejam acreditados", adiantou.
Questionado sobre se o estreitamento de laços com países que apresentam historial de lesar direitos humanos pode ser prejudicial para a imagem do município, Ricardo Araújo vinca que tem opinião sobre qualquer assunto, mas que não lhe cabe “interferir na dimensão de política internacional do Estado”. “Há uma relação institucional do presidente de Câmara, que recebe naturalmente os embaixadores que têm o direito de serem reconhecidos institucionalmente", reforçou.
Bloco de Esquerda: “Guimarães não pode normalizar a relação com Israel”
O núcleo de Guimarães do Bloco de Esquerda foi a primeira entidade política a reagir à visita do embaixador de Israel a Guimarães. Para os bloquistas, Guimarães “não deve aprofundar relações económicas, tecnológicas ou institucionais com o Estado de Israel, ignorando o sofrimento do povo palestiniano e as decisões do Tribunal Internacional de Justiça sobre a ocupação dos territórios palestinianos”.
“A publicação oficial da Câmara anuncia “novas possibilidades de colaboração” com Israel nas áreas de inovação, tecnologia, indústria e investimento. Num momento marcado pela devastação de Gaza, pela ocupação do território palestiniano e por graves violações do direito internacional, esta aproximação institucional não pode ser tratada como uma relação normal entre parceiros”, refere a nota emitida pelo núcleo.
Na sequência dos ataques do Hamas no sul de Israel, em 7 de outubro de 2023, na sequência dos quais morreram cerca de 1.200 pessoas e 251 foram feitas reféns, Israel lançou um ataque terrestre em grande escala no enclave de Gaza, que, segundo as autoridades locais controladas pelo Hamas, já causou mais de 73 mil mortes, números considerados fidedignos pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Desde que o cessar-fogo acordado em outubro de 2025 está em vigor, as autoridades de Gaza contabilizam mais de 1.300 palestinianos mortos em ataques do exército israelita, que mantém restrições à entrada de jornalistas e observadores independentes no território.
O BE realça que “a procura de investimento ou de oportunidades económicas não pode servir para apagar este contexto”, exige que o presidente da Câmara esclarece que “compromissos ou formas de cooperação foram discutidos” e “qual a posição do município relativamente às violações do direito internacional nos territórios palestinianos ocupados”.
Juventude Socialista: “Perante um genocídio, silêncio institucional não é uma escolha”
Num comunicado emitido nesta segunda-feira, a Juventude Socialista de Guimarães (JS Guimarães) defendeu que “nenhuma relação institucional pode ser apresentada como se estivesse desligada da realidade política e humanitária” do presente, aludindo “ao genocídio em curso na Faixa de Gaza, à destruição de um território, à morte e deslocação de milhares de civis e a gravíssimas violações do direito internacional humanitário”.
Embora não questione a existência de relações diplomáticas com Israel, nem “confunda o povo israelita com as decisões e ações do seu Governo”, a JS Guimarães questiona “a normalização de relações de cooperação económica, tecnológica e institucional sem uma palavra sobre o genocídio em Gaza, sobre o sofrimento do povo palestiniano e sobre a necessidade de respeito pelo direito internacional. “Nenhuma oportunidade económica, nenhum investimento e nenhuma perspetiva de cooperação pode ser colocada acima da vida humana e dos direitos humanos”, vinca a estrutura jovem do PS.
Convicta de que a defesa dos direitos humanos “não pode depender da geografia, da conveniência política ou das oportunidades económicas”, a JS realçou que o encontro deveria ter sido “uma oportunidade para transmitir uma posição inequívoca em defesa da paz, da proteção das populações civis, do cumprimento do Direito Internacional e do direito do povo palestiniano a viver com dignidade, liberdade e segurança”.
“Guimarães deve ser uma voz pela paz, pelos direitos humanos e pelo direito internacional. Perante um genocídio, o silêncio institucional não é neutralidade: é também uma escolha”, lê-se.