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"Um dia vou como os outros, mas só irei quando me doerem as mãos"

António Magalhães
Cultura \ sexta-feira, junho 16, 2023
© Direitos reservados
Arménio Sá é, talvez, um dos mais conhecidos artistas vimaranenses, fazendo da pintura uma forma de demonstrar a sua pertença à comunidade.

Uma cidade que, como salienta, é pródiga em talentos, mas a que talvez não se dê a devida atenção. Partimos em viagem numa conversa que nos levou desde as primeiras manifestações de “jeito para a pintura”, até às memórias do serviço militar na Guiné e o convite do General António de Spínola para uma bebida no Palácio do Governador.

Trabalhador incansável, continua cheio de projetos, cuja mais recente expressão será um livro a editar muito proximamente.

Quando descobriu que tinha “jeito para desenhar”?

Na escola primária comecei a notar que, conforme ia crescendo, eu era capaz de passar para um papel tudo o que estava à minha volta. Fixava facilmente as imagens que me rodeavam. Comecei a exercitar sozinho e aí por volta dos meus dez anos, na quarta classe, tínhamos de fazer um desenho no caderno e o professor apercebeu-se e convidou-me a fazer os desenhos de todos os meus colegas num único caderno. Esse trabalho acabou por ser exposto e, embora tudo aquilo me parecesse um pouco estranho, comecei a pensar que poderia vir a aproveitar, no futuro, essa habilidade.

Durante o serviço militar foi mobilizado para a Guiné; que memórias tem desse tempo?

No serviço militar fiz o curso de fotografia e cinema, na Escola Politécnica, e em dezembro de 1971 fui para a Guiné. Uma das especialidades que tinha de fazer era levar cinema aos soldados que estavam destacados no interior do território. Deslocava-me por terra, rio ou ar; era como calhasse. Naqueles percursos sentia-me ameaçado porque estava sujeito a levar um tiro ou a uma mina que rebentasse.

Em setembro vim de férias à Metrópole, trouxe uma fotografia do General António de Spínola e fiz uma pintura a partir dessa fotografia. Mandei-a emoldurar em pau-santo e fiz uma fotografia ao quadro. Escrevi uma carta ao General Spínola, não lhe pedindo nada, mas dizendo-lhe que o admirava imenso e como tinha gosto pela pintura, sobretudo pelo retrato, teria todo o gosto em oferecer-lho.

Aquilo passou e no regresso de mais uma saída de 15 dias ao interior da Guiné, sou chamado pelo capitão dizendo-me que havia um documento do Palácio do Governador em que o General Spínola queria falar comigo o mais urgente possível. Só tive tempo de me preparar porque vinha do mato, cheio de pó. Fui conduzido ao Palácio do Governador, fui recebido muito simpaticamente e ainda me lembro de o ver encostado à secretária com o quadro na mão. Na altura o General António de Spínola era um mito, um símbolo na Guiné. Estar sentado num sofá, ao seu lado, a tomar uma bebida servida por um major, era único. Disse-lhe que era de Guimarães e ele disse-me que conhecia Vizela porque aí fazia termas.

Durante a nossa conversa várias vezes me disse que tinha de me agradecer. Respondi-lhe que nada tinha a agradecer e que nada queria em troca. O certo é que nunca mais fui para o “mato”. Passei a fazer serviços mais leves e, por altura da Páscoa, recebi um bilhete de avião de ida e volta para gozar 35 dias na Metrópole para passar a Páscoa com os meus pais. Foi o General que me pagou essa viagem.

Na Guiné, continuou a pintar?

Após esse encontro com o General Spínola fiquei muito conhecido, sendo até entrevistado pela rádio. As pessoas queriam conhecer-me pessoalmente, levando a situações caricatas. Lembro-me que tínhamos no destacamento um natural da Guiné que colaborava connosco e que um dia me pediu a ver se ia com ele visitar a sua família porque achava que desenhar com as mãos a cara de alguém era fabuloso. Assim, encontrei-me frente a um grupo de mais de 100 pessoas e ele foi explicando, em crioulo, que eu com as mãos conseguia desenhar a cara das pessoas. Estavam espantados e vinham mesmo apalpar-me as mãos. Foi um episódio muito giro.

Concluído o serviço militar regressou a Guimarães; o que se seguiu?

Nesse tempo fui trabalhar para uma empresa de estamparia, como criativo. Posteriormente fui convidado para dar aulas de desenho nos cursos noturnos da Escola Industrial e que funcionavam no edifício da atual Câmara Municipal de Guimarães. Contudo, na altura eu já estava casado, tinha um filho para nascer e tive receio que as coisas corressem mal e não aceitei, continuando com a profissão que já tinha.

Continuou a pintar?

Sim, continuei. Fui criando o meu espólio até que em 1998 fiz uma exposição na Sociedade Martins Sarmento. Apresentei 70 quadros dos quais 20 já estavam vendidos, assim como quase todos os demais.

Continuei durante cerca de 30 anos ligado à têxtil, mas continuava a pintar. Até aos fins-de-semana! Punha uma tábua sobre a mesa de jantar e pintava porque o dinheiro não chegava. Às vezes num fim-de-semana ganhava quase o mesmo que num mês na empresa. Sempre trabalhei; sempre a lutar para ter uma situação economicamente mais confortável.

Desse tempo quais eram os principais motivos da sua pintura?

Desde os tempos em que estava na tabacaria dos meus pais, aquilo que mais me sensibilizou e atraiu eram os rostos marcados pelo tempo ou com uma expressão de sofrimento. O retrato ou a figura, era onde me sentia mais à vontade.

Continua a pintar e sempre com novos projetos.

Nunca parei de pintar e de desenhar. Fiz formações diversas, como por exemplo desenho de joias e durante dez trabalhei numa empresa a desenhar joias. Fiz formação na área do restauro e ainda hoje faço restauro de quadros. Sou também mestre de reiki.

Chegamos a uma idade em que começamos a pensar no que nos resta viver e temos atrás de nós uma família, os netos. É para eles que estou a fazer um livro, é para eles que estou aqui. Um dia vou como os outros, mas só irei quando me doerem as mãos; quando eu não puder pegar nos pincéis.

Estamos numa cidade em que tive a felicidade de nascer. Terra onde há muitas pessoas, muitos talentos em várias áreas e que deviam ser mais apreciadas, respeitadas e apoiadas. Há várias pessoas com talento e todo esse património faz parte da cidade, porque esta não é apenas os seus monumentos. Devia ser registado em livro e ficar para aqueles que veem a seguir porque faz da história da nossa cidade.

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