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A "Estrada Velha", em terras de Sande

Gonçalo Cruz
Opinião \ quarta-feira, março 29, 2023
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Não seria difícil obter dados mais concretos. Quiçá uma simples sondagem arqueológica nos revelasse preciosa informação.

Está documentado este topónimo num trecho da freguesia de São Lourenço de Sande, mas associado a um caminho que percorria aquela encosta entre Balazar e São Martinho de Sande. O termo estabelece um contraponto com a "Estrada Nova", uns metros acima, que corresponde ao troço da Estrada Nacional 101 nesta zona do Concelho de Guimarães. Dizia Carlos Alberto Ferreira de Almeida, que esta "Estrada Velha" deveria ser o antigo "caminho real" entre Braga e Guimarães, e que deveria corresponder ao traçado de uma via medieval ou romana.

Sabemos, com algum grau de certeza, que passava uma via romana algures neste vale relativamente encaixado. A existência da cidade de Bracara Augusta, no vale vizinho, tributário do Rio Este, do povoado romano das Taipas, do lado de cá, e da ponte de Campelos sobre o Ave, são elementos muito precisos que indiciam a existência desta via. Mais que isso, a recolha, no século XIX, de um marco miliário, da época de Trajano, perto da igreja de São Martinho de Sande, marcando a quarta milha a partir de Bracara, é um achado que, embora não estando já na sua implantação original, não deixa muitas dúvidas quanto ao traçado de uma antiga via imperial, que muito provavelmente faria a ligação entre Bracara e o vale do Douro.

Antiga calçada no lugar da Geia, Balazar

De facto, as características topográficas da zona permitem-nos, ainda hoje, ter uma ideia do troço desta antiga via romana, quase sempre associado a referências a calçadas antigas, algumas das quais sobrepostas, já nas últimas décadas, por pavimentos asfaltados. Entrando no vale do Ave pela passagem com cota mais baixa – a portela na Freguesia da Morreira – a via percorria o declive mais suave possível, evitando pendentes acentuadas, como era usual na engenharia romana. Seguia, portanto, transversalmente à encosta, a uma cota mais baixa que a atual Estrada Nacional, evitando a veiga, fértil e alagadiça, que ficava abaixo. O trajeto passa por locais com topónimos sugestivos, como é o caso da "Geia", fazendo lembrar o nome que, no Gerês, se dá à antiga via romana, conhecida como Geira. Este trajeto é acompanhado, na sua maior parte, pela respeitadora presença do Castro de Sabroso que, porém, já não seria habitado nesta fase, mas que não teria perdido o seu interesse estratégico. Chegava a via, finalmente, às terras baixas, na zona dos Quatro Irmãos. Daqui seguiria para o povoado das Taipas, ou para a ponte de Campelos, em dois possíveis troços.

As poucas zonas de calçada, dita "antiga", que nos chegaram deste troço, dificilmente serão originárias da época romana, sendo muito provavelmente resultantes de reconstruções e manutenções ao longo dos séculos, na Idade Média e na época Moderna. Contudo, não seria difícil obter dados mais concretos, posto que as estradas romanas dispunham de níveis de preparação muito característicos, que talvez ainda se conservem. Quiçá uma simples sondagem arqueológica nos revelasse preciosa informação. Esta reflexão foi-nos sugerida pela recente intervenção realizada sobre um troço de calçada antiga em Coimbrões, Viseu, que nos últimos dias tem deliciado o público online.

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