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A força da esquerda tem de ser as ruas

Rui Antunes
Opinião \ terça-feira, março 12, 2024
© Direitos reservados
A responsabilidade é ouvir o descontentamento e construir com as pessoas as soluções para os seus problemas: salário justo, habitação digna, saúde e educação de qualidade

Nestas eleições legislativas, no ano em que se comemoram 50 anos do 25 de abril, há vários factos dignos de ser assinalados. Do lado positivo é de destacar a excelente participação cidadã. A abstenção foi de 33,8%, a mais baixa desde 1995, e registou-se um recorde de votantes, com mais de 6,1 milhões de pessoas a irem às urnas. A parte negativa é o crescimento exponencial da extrema-direita, que passa de 12 para 48 deputados, ganhando em várias cidades e no distrito de Faro.

Ainda sem resultados finais, aguardando-se a contabilização dos votos do estrangeiro que atribuirão quatro mandatos, regista-se desde já uma maioria de direita no parlamento. O Partido Socialista foi o mais castigado nas urnas, perdendo cerca de um terço do grupo parlamentar. O Partido Comunista Português também perde votos e um deputado. Em sentido inverso, o Bloco de Esquerda tem mais votos, mas mantém o grupo parlamentar. O Livre quadruplica os eleitos.

Esta viragem do país à direita pode ser explicada pela inércia do Partido Socialista em resolver os problemas do país. Depois do governo da geringonça, concentrado na reposição de direitos cortados no tempo da troika, as pessoas exigiam mais. O PS pediu uma maioria absoluta em 2022 e o país deu-a. No entanto, a instabilidade foi constante e depressa se degradaram as instituições ao ponto do primeiro-ministro se ter demitido e o Presidente da República ser impelido a convocar novas eleições. Foi desperdiçada, portanto, a oportunidade de dar resposta aos anseios da sociedade, dos profissionais da saúde e educação aos trabalhadores precários de vários setores.

A aparente transferência de votos do PS e CDU para o CH em alguns círculos eleitorais resulta da conjugação de múltiplos fatores. Não havendo dados que permitam sustentar afirmações concretas, farei uma reflexão sobre algumas causas. As crises provocadas pela Covid e pela guerra não afetaram todos da mesma maneira. Na pandemia, os trabalhadores com vínculos instáveis foram especialmente afetados pela crise, uma vez que a maioria das medidas de proteção do emprego, como o layoff, privilegiavam trabalhadores dos quadros e os contratados foram os primeiros a ser descartados pelas empresas. Também nesta crise inflacionista, provocada pela guerra e pelo aumento de juros, os trabalhadores e pensionistas mais pobres sofreram especialmente com o aumento dos preços dos bens alimentares e da habitação. Há trabalhadores a tempo inteiro que não têm salário para sair da pobreza e o desemprego aumenta em cinco vezes o risco de exclusão social. As respostas da maioria do PS foram sempre insipientes, os problemas agravaram-se e as pessoas ficaram zangadas.

Acontece que os partidos à esquerda não conseguiram capitalizar este descontentamento, não tendo sido capazes de explicar convenientemente as suas propostas e os benefícios das suas alternativas para o país e para estas pessoas. Sem ter uma explicação muito concreta para esta nova realidade, importa salientar o papel importante que os partidos de esquerda terão neste novo ciclo político, para enfrentar este PSD de retrocessos de direitos sociais e laborais. Como também não há um milhão de portugueses racistas e xenófobos, há aqui uma responsabilidade acrescida em ouvir o descontentamento popular e construir com as pessoas as soluções para os seus problemas. É uma luta que se fará nas ruas pelas causas que interessam à vida das pessoas: trabalho com salário justo, habitação digna e acessível, saúde e educação gratuitas e de qualidade.

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