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A réplica renovada da "Fonte do Ídolo", no Museu Martins Sarmento

Gonçalo Cruz
Opinião \ terça-feira, maio 24, 2022
© Direitos reservados
No final de Janeiro de 1895, deslocava-se a Braga um estucador, apelidado por Sarmento como "o meu Fídeas", para fazer um molde da fachada rochosa da fonte.

Tal como hoje em dia, os museus arqueológicos que surgiram há mais de cem anos em diversas cidades europeias, expunham peças originais, mas também réplicas. A realização de cópias para exposição fazia-se, por um lado, para compor um espaço temático com algumas peças que faziam sentido no discurso museográfico, por outro, como forma de registo de objetos em risco de degradação ou desaparecimento.

Foi esta a principal razão para a realização, para o então recentemente criado Museu Martins Sarmento, de uma cópia do monumento bracarense conhecido como Fonte do Ídolo. Não foi razão única porque, a partir de uma cópia perfeita, pretendia Sarmento estudar melhor as diferentes inscrições latinas existentes na superfície rochosa desta fonte que, sabemos hoje, foi um santuário dedicado à deusa Nabia e ao deus Tongus Nabiagus.
Os vestígios mais evidentes remontam à época romana, quando um tal Celico Fronto, natural de Arcobriga – pensa-se que algures na Lusitânia – edificou um santuário a estas divindades nos arrabaldes de Bracara Augusta (hoje no centro de Braga). Aproveitando uma nascente natural, construiu-se um recinto e esculpiu-se a rocha, com inscrições, que identificam os deuses e o promotor, e iconografia, da qual se destaca a divindade principal, Nabia, deusa associada às águas, fertilidade e abundância. O tal "Ídolo", que hoje identifica o local.

No final de Janeiro de 1895, deslocava-se a Braga um estucador, apelidado por Sarmento como "o meu Fídeas", para fazer um molde da fachada rochosa da fonte, acompanhado por Albano Belino, que esteve no local e supervisionou o trabalho do "artista", como também se lhe referiam. A realização da réplica pode considerar-se uma iniciativa conjunta de Sarmento e de Belino, dois entusiastas da epigrafia latina e dos vestígios do passado, para os quais despertava, muito timidamente, a cidade dos arcebispos. Ainda no mesmo mês foi montada a cópia no piso inferior do Museu, no claustro de São Domingos de Guimarães, através de uma estrutura de ferro, revestida a tijolo e preenchida com argamassa e em cuja superfície se modularam as esculturas e inscrições do monumento, em gesso.

De facto, temendo uma eventual destruição, ou degradação acelerada do monumento, a reprodução foi uma forma de salvaguarda e registo dos vestígios então existentes. Outros se vieram a descobrir mas tarde, nomeadamente com escavações arqueológicas, que revelaram mais epigrafia latina – testemunhando um voto a Nabia de uma tal de Rufina – bem como elementos que fazem remontar o santuário à Idade do Ferro, tempo dos castros, quando o santuário consistiria num local natural, solo sagrado, frequentado sazonalmente pelas comunidades castrejas da região, como concluíram os trabalhos coordenados por Manuela Martins e Sande Lemos.

A réplica existente em Guimarães estava, passados mais de 120 anos, num avançado estado de degradação. O restauro da peça, realizado com sucesso pela equipa de Susana Laínho, nos últimos meses, foi um trabalho complexo e meticuloso, cujo resultado nos revela uma parte do esplendor deste antigo santuário aos deuses de antanho.

"Pormenor da réplica da Fonte do Ídolo no Museu da SMS".

"Pormenor da réplica da Fonte do Ídolo no Museu da SMS".

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