skipToMain
ASSINAR
LOJA ONLINE
SIGA-NOS
Guimarães
16 junho 2024
tempo
18˚C
Nuvens dispersas
Min: 17
Max: 19
20,376 km/h

A mente fabril

Esser Jorge Silva
Opinião \ terça-feira, junho 27, 2023
© Direitos reservados
Não projeta. Não imagina. Não entrevê criação. Não vislumbra, nem com luz. A claridade ofusca-a. A luz queima. O estado natural é treino de sobrevivência nas trevas. A escuridão é o seu território.

A mente fabril é conformista. Está sempre pronta a obedecer e não conhece outro estado que não seja assentar, “sim senhor”. A mente fabril não proíbe o inconformismo, “não senhor”. Simplesmente desconhece a sua existência, porque, na sua longa existência, não a experimenta, nem lhe conhece consequências. É um tipo de mente com capacidade produtiva circular: a submissão produz o chefe e o chefe alimenta a submissão. Funciona também sob características de reprodução social: o chefe gera chefes, a submissão gera submissos. Sim, uma ou outra vez, há uma exceção: é a comprovação estatística da margem de erro.

A mente fabril é submissa aos desígnios da sorte. Vê-se a si mesma como o resultado do destino que lhe foi preparado. Considera sempre o seu destino como coisa boa, “nunca pior”. O seu papel é submeter-se a esse sortilégio que a vida lhe deu, até porque a sua sorte é muito melhor do que a do vizinho, esse sim, um desgraçado “que não tem onde cair morto”.

A mente fabril não gosta de mudanças. Não lhe chegou o poeta que advogava “todo o mundo feito de mudança”. Na mente fabril, toda a mudança é atravessada pela tragédia e só pode trazer consigo o pior. A mente fabril canta palavras para se convencer na descrença de dias melhores, “pra melhor está bem, está bem, pra pior já basta assim”. A vontade não muda. Os tempos também.

A mente fabril não arrisca. Mas também não controla o risco da sua existência. Simplesmente não arrisca porque as linhas da sua sorte, impressas na sua mão direita, vistas amiúde pela cartomante, desencontram-se com a curva da linha da vida. As poucas tentativas de risco verificadas mostraram à sagacidade como esse desencontro não é uma crença, mas uma verdade comprovada. Na mente fabril tem razão a bruxa, de quem ninguém acredita como é óbvio, “pero que las hay, las hay”.   

A mente fabril adora quem manda ou se apresenta como quem manda. A mente fabril conhece o seu lugar e o seu lugar é dever. Deve. Tem uma dívida que lhe foi dada de herança e da qual não se liberta. Vem de lá longe na relação do senhor e servo. O credor da sua dívida é aquele que pode. Aquele que tem poder. A mente fabril encerra-se no círculo de giz que lhe ensinou a fórmula “manda quem pode”, “obedece quem deve”, que reafirma, em tom profundamente acrítico, como se cantasse ciência (profundamente) sentida.

A mente fabril não defronta nem confronta. Não projeta. Não imagina. Não admite imaginação. Não entrevê criação. Não vislumbra, nem com luz. A claridade ofusca-a. A luz queima. O seu estado natural é um treino de sobrevivência nas trevas.  A escuridão é o seu território. Ali, no redondo do breu, a mente fabril tateia em busca das arestas da vida cujas apalpadelas hão de guiá-la pelos únicos caminhos seguros oferecidos.

A mente fabril vive o presente cantando as glórias das grandes narrativas do passado, “já fomos grandes”, um dia seremos maiores. É uma espécie de “já fui até Timor, Angola, Moçambique / já fui o Conquistador”. “Já ‘fostes’”, assevera quanto lhe escapa a razão. No máximo, a mente fabril, imagina o momento, quando a dádiva lhe chega em forma de (des)graça. O futuro é uma distância impossível, um dia que virá com as graças de “nossossenhor”, e mesmo assim “se Deus quiser”. Oxalá!

A mente fabril espera que alguém lhe resolva os seus problemas. Nem imagina que quem lhe resolve problemas os resolve na exata medida dos seus interesses. Imensas vozes da mente fabril afirmam o quanto a encarregada ou o encarregado geral da fábrica eram tratados como “filhos” pelos patrões. É assim a adoção da mente fabril: não é o pai que adota, mas sim o putativo filho que se apega às estratégias de querer pertencer aos restos daquela família.

A mente fabril é como aquele outro: anda por aí. Está em todo o lado. Cultiva-se e reproduz-se dócil, obediente e conformista. É feliz com o que tem. Pobre mente.

Podcast Jornal de Guimarães
Episódio mais recente: O Que Faltava #73