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“Há um só Deus”

Ruthia Portelinha
Opinião \ sábado, dezembro 09, 2023
© Direitos reservados
Na Costa do Marfim, onde se observam tanto feriados muçulmanos como católicos, e onde existe uma igreja logo seguida de uma mesquita, o Natal é património comum de católicos, muçulmanos e animistas.

As lojas e centros comerciais de Abidjan vibram com luzes natalícias, apesar de os termómetros desmentirem que dezembro chegou, quando marcam 36 graus Celsius em média. Os vendedores que fintam o trânsito caótico acrescentaram barretes vermelhos ao seu stock habitual e os escultores do Centre Artisanal de la Ville d’Abidjan apresentam uma hoste de Pais Natal bronzeados, entre as suas peças.

Há dias, rumei à maior loja de decoração da cidade em busca de um pinheiro de Natal e percebi que a quadra desceu em força nas prateleiras. Grande parte do piso superior está coberto de árvores artificiais (algumas com imitação de neve) e vários corredores estão ocupados com os mais variados enfeites.

O que mais me surpreendeu, no entanto, foi a quantidade significativa de clientes que ostentava hijab. Como assim? O que estariam ali a fazer, se os muçulmanos consideram Jesus um mero profeta e as suas festas maiores são o fim do Ramadão e a Festa do Sacrifício? 

Sei que em países com muitas famílias mistas, como acontece em Moçambique, é normal amigos cristãos e muçulmanos partilharem a ceia de Natal, mas a ideia de enfeitarem a casa, comprarem presentes e prepararem uma ceia para toda a família islâmica pareceu-me algo surreal.

Há cerca de um ano, o astro do Liverpool Mohamed Salah, de origem egípcia, foi amplamente criticado, após publicar uma foto de Natal em família nas suas redes sociais. Para além disso, em alguns países de maioria muçulmana, como a Arábia Saudita e a Somália, o Natal e os seus símbolos são proibidos. 

O cenário abidjanense intrigou-me sobremaneira, de modo que fui pesquisar sobre o assunto. Descobri que várias comunidades islâmicas festejam mesmo o Natal; o costume de enfeitar  árvores de Natal dos muçulmanos dos países bálticos e da Finlândia antecede a sua popularização generalizada; e os alawitas da Síria e Líbano até montam presépios.

Percebi que o apelo comercial inspira a decoração natalícia em destinos como a Turquia, ainda que com uma conotação secularizada. O maior país muçulmano do mundo, a Indonésia, tem tradições peculiares nesta quadra, com multidões a disfarçarem-se do velhote barbudo. E aqui na Costa do Marfim, onde se observam tanto feriados muçulmanos como católicos, e onde existe uma igreja logo seguida de uma mesquita, o Natal é património comum de católicos, muçulmanos e animistas.

A madame Waafa, libanesa e esteticista, resumiu-me de forma exemplar o seu sincretismo religioso, depois de detalhar extensamente os seus planos para decorar o salão para o Natal, enquanto me depilava as sobrancelhas à linha. «Je fête Noël, le Ramadan, Pâques, l’ Eid Al Adha. Parce qu'il n'y a qu'un seul Dieu» (Festejo o Natal, o Ramadão, a Páscoa e a Festa do sacrifício. Porque há um só Deus). Que é como quem diz, o simbolismo natalício não é exclusivo de uma crença. Pudesse todo o planeta comungar deste tempo de reflexão, amor e celebração.

Ruthia Portelinha, viajante e autora do blog O Berço do Mundo!

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