skipToMain
ASSINAR
LOJA ONLINE
SIGA-NOS
Guimarães
16 junho 2024
tempo
18˚C
Nuvens dispersas
Min: 17
Max: 19
20,376 km/h

A lamentável interferência dos políticos na prática médica

Prof. Dr. José Cotter
Opinião \ segunda-feira, setembro 25, 2023
© Direitos reservados
A interferência, a coacção, a pressão encapotada dos políticos nesta área específica, são inqualificáveis.

Como é público, estamos numa fase de grande contestação dos médicos relativamente ao Poder Central, nomeadamente ao Governo. Este, por seu lado, apregoa aos quatro ventos que vai implementar uma grande revolução na saúde em Portugal no que diz respeito ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), que, para todos os que querem fazer uma análise isenta, percebem que está cada vez pior, em autêntico colapso iminente, sem solução à vista. Não me vou pronunciar sobre a generalidade das razões para tal contestação, mas apenas sobre duas que considero inqualificáveis para qualquer implementação.

A medicina evoluiu muito nas últimas dezenas de anos, para bem de todos nós. A esperança de vida aumentou e existe uma luta constante para que também se proporcione uma melhoria da qualidade de vida aos cidadãos, através de uma melhor prevenção das doenças e de um tratamento mais eficaz destas. Para isso, muito contribuiu uma alteração de paradigma que permite que a medicina seja hoje uma ciência demonstrativa e não uma ciência de presunção. Isto é, em função do estudo ou das alterações que o médico encontra no seu doente, são exigidos os exames complementares adequados para, depois de chegar ao diagnóstico, ser efetuado, tão atempadamente quanto possível, um tratamento adequado.

Esta é a forma correta e atual de praticar medicina, uma vez que valendo-nos de uma velha máxima “a saúde não tem preço e é o nosso maior bem”. Acontece que nestas pretensas reformas, o Governo está a tentar intrometer-se na atividade clínica dos profissionais, premiando-os ao aumentar o seu vencimento caso prescrevam um número reduzido de exames aos seus doentes (atualmente chamados “utentes”) e também no caso de prescreverem um número reduzido de medicamentos, ainda que ambos sejam necessários! Caso contrário, o seu vencimento será reduzido!

Esta postura obstinada é inqualificável, pondo em causa, em nome dos pretensos gastos, a saúde dos cidadãos. Além de representar um retrocesso de anos. Os próprios cidadãos também não aceitarão, e muito bem, esta forma de estar, nomeadamente dos seus médicos de família, a quem estas medidas são primeiramente dirigidas. Um bom profissional médico deverá tratar o seu doente de acordo com a “legis artis” e não em função de imposições políticas pretensamente economicistas, em que as pessoas são transformadas em números.

Digo pretensamente, pois se se evitar um cancro que seja, ir-se-á economizar um horror de dinheiro com tratamentos subsequentes de cirurgia, quimioterapia, radioterapia, etc. Além de que, de forma muito importante, se evita uma lamentável deterioração da qualidade de vida do cidadão em causa. Esta postura política é, pois, de uma hipocrisia manifesta, pois o dever dos Governos é zelar pelo bem-estar das populações que representam e aplicar bem o dinheiro resultante dos vultuosos impostos que nos são cobrados. Fazer uma ecografia, umas análises, uma TAC ou uma endoscopia são hoje em dia atos correntes da prática da medicina, que desde que prescritos por um médico que acima de tudo está interessado no bem-estar do seu doente, têm de ser realizados.

A interferência, a coacção, a pressão encapotada dos políticos nesta área específica são inqualificáveis.  E porque vão contra o que são os objetivos da prática de uma boa medicina, os clínicos não poderão responsavelmente pactuar com estas inéditas medidas. Além de que, de forma muito importante, tudo isto só serve para prejudicar os mais desfavorecidos, que têm de se socorrer do SNS, e não propriamente aqueles que são os autores de tais medidas.

Podcast Jornal de Guimarães
Episódio mais recente: O Que Faltava #73