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Capital Verde Europeia 2025: do setor primário à ideia de concelho-cidade

Carlos Caneja Amorim
Opinião \ quarta-feira, fevereiro 08, 2023
© Direitos reservados
No meu modesto parecer, a candidatura deve partir do conceito base de concelho-cidade, onde, como o referi em anterior antigo, o urbano e o rural se entrelaçam construindo a unidade.

No site da Câmara Municipal de Guimarães (https://www.cm-guimaraes.pt/municipio/viver-guimaraes) avança-se o seguinte sobre a nossa realidade económica concelhia: “O sector secundário revela-se, em Guimarães, como a atividade económica dominante, em que 70% das empresas representam a indústria têxtil. A indústria metalúrgica também está aqui representada, assim como as cutelarias, cujas marcas portuguesas mais conceituadas do sector estão sedeadas no concelho. A indústria de curtumes que foi a atividade pioneira, no século XIX, mantém-se viva, ainda, em algumas empresas. Na última década, o sector terciário registou um forte desenvolvimento. Foram criados muitos Gabinetes de consultoria de apoio às empresas, alargou-se a atividade bancária, cresceu a rede escolar, desenvolveu-se muito o Turismo. Embora a maioria dos serviços públicos continue a concentrar-se na sede do Distrito, foi alterada a situação de peso residual do sector terciário na atividade económica local. O sector primário - a agricultura - continua apenas presente no Norte do Concelho, com pequeno peso populacional.

Sendo eu um francófono (sou um eterno apaixonado pela língua e cultura francesa e a minha maior frustração existencial é saber que o accent genuíno não está ao meu alcance..o “meu francês” verbal é similar, no limite, ao do saudoso Dr. Mário Soares), sempre me custou aceitar uma certa dimensão e tradição chauvinista francesa, em que se faz gala e se exibe, sem pudor, um complexo de superioridade face a tudo o que é estrangeiro. Já Portugal, por sua vez, numa perplexidade do seu espírito pátrio (volksgeist), tem uma pulsão para ser xenófobo consigo próprio: tendemos a não gostar de nós e a dizer mal de nós próprios e do que é nosso: o que é estrangeiro é que é bom. E isso é mais patente na nossa visão do mundo rural, onde, pasme-se, está no nosso dicionário a arma fumegante: o significante PROVINCIANO tem o seguinte significado: “pertencente ou inerente a pessoa da província; acanhado, ridículo, aldeão – cfr. https://dicionario.priberam.org/provinciano).

Em Portugal há o preconceito contra a ruralidade e a atividade agrícola. Daí não causar estranheza que o Governo da República (que na semana pretérita deu-se ao humilhante atrevimento de verbalizar que ainda não nomeou um novo Secretário de Estado da Agricultura – previsto na Lei Orgânica do Governo - porquanto não tinha encontrado a pessoa certa) e a Câmara Municipal de Guimarães não deem a justa importância ao mundo rural e ao setor primário. Dizer-se que (como o faz a Câmara Municipal no seu site) o setor primário em Guimarães é irrelevante é não ter a noção da realidade histórica e atual do concelho. É falso dizer-se que só a Norte do concelho havia uma exígua prática agrícola (excluindo a prática agrícola de subsistência). Atalhando com um exemplo atual: a produção vinícola (e o enoturismo) no concelho (Quinta dos Encados, Quinta Pousada de Fora, Quinta da Rabiana, Casa de Sezim, Quinta da Cancela: à laia de exígua amostra) está a atingir níveis qualitativos e quantitativos assaz interessantes (já se falando, atento os prémios já ganhos em prestigiados concursos, do particular e especial “Terroir das Terras de Vimaranes”). A produção frutícola (ex: kiwis, frutos vermelhos, etc.) e hortícola também atinge números consideráveis.

Pode uma candidatura a Capital Verde Europeia olvidar o setor primário? Não me parece e seria um erro colossal. Um dos fatores premium de coesão territorial e sustentabilidade ambiental é o setor primário. Aliás, no meu modesto parecer, a candidatura deve partir do conceito base de concelho-cidade, onde, como o referi em anterior antigo, o urbano e o rural se entrelaçam construindo a unidade, logo, agigantando-se, fazendo das periferias centro (e nós temos nove vilas), com um planeamento que garanta um mosaico de diferentes densidades urbanas (habitacional, comercial, industrial, agrícola, etc.), tudo interligado por uma mobilidade verde de excelência. Permitam que me socorra da sagesse do arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles: “as ideias que presidem à criação da nova cidade devem ter como paradigmas a integração cidade-campo e a conexão urbanismo-ecologia. O homem de hoje tende a deixar de ser rural ou urbano para alcançar uma visão cultural que abrange tanto os valores da ruralidade como os da cidade. E quem diz os valores diz, também, as atividades. O conceito de paisagem global tende a informar todo o processo de ordenamento do território e o próprio urbanismo.” (https://observador.pt/opiniao/as-cidades-inteligentes-segundo-goncalo-ribeiro-telles/). E já agora: não esquecer de mencionar na candidatura a Horta Pedagógica de Guimarães: que foi, diga-se, porque justo é, uma notável, corajosa (atento o seu local e as pressões imobiliárias) e visionária iniciativa da Câmara Municipal.

São apenas uns humildes subsídios para que esta candidatura (que tem de ser um desígnio coletivo e todos devem contribuir para o seu sucesso) não naufrague como aconteceu com a anterior de 2017 e sobretudo, não lhe aconteça o mesmo que às renovadas instalações do Laboratório da Paisagem (que está a fazer um excelente trabalho e merece o meu aplauso sem reservas) quando chove muito…inunda…pelas águas do Rio Selho..tudo porque não houve o planeamento devido. 

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