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Guimarães e o regresso do filho pródigo

Carlos Caneja Amorim
Opinião \ terça-feira, agosto 23, 2022
© Direitos reservados
É tempo de pensar alto e falar claro e exigir que o País “regresse a casa”, até porque, permita-se a ironia, não consta que Portugal tenha pedido a independência de Guimarães.

Na parábola bíblica (Lucas 15, 11 – 32) o filho pródigo regressa a casa para gáudio de seu pai, ocorrendo arrependimento e redenção. Terá Guimarães tal boa fortuna? Sendo terra de gigantes não existe o perfil de vítima, logo, não se desiste (muito menos de um filho), e vai-se à luta, sendo neutro o sorriso de Euclides em termos de cálculo das probabilidades de sucesso. De que falo? Do filho gerado em Guimarães de seu nome País, conhecido por Portugal, que, em tenra idade, deixou o seu berço e rumou a Sul. Não foi sozinho: levou consigo o centro do poder, por extenso, a designação substancial de capital do Reino.

O nosso primeiro Rei, vimaranense de berço (até isso nos quiseram tirar, tal como sucedeu com o nosso Gil Vicente: Viseu e Barcelos, respetivamente, diziam-se terras de nascimento de Afonso Henriques e de Gil Vicente), sentiu-se impelido a agir em nome da dignidade dos seus conterrâneos, face a uma “governação” longínqua, ineficiente e ineficaz, que favorecia determinados grupos de privilegiados por decreto, sem qualquer critério de justiça ou de mérito. O poder era exercido e estava ao serviço de tudo, menos da comunidade local. O conquistador, armando-se cavaleiro a si próprio, sinal de independência, verticalidade e autoridade, pôs fim à ignomínia e fundou um país de líderes e de empreendedores. Séculos passaram e Guimarães sempre fez gala destas pulsões iniciais: sede de conquistas individuais e coletivas e de modernidade e progresso. Foi, por exemplo, com este ADN afonsino, que, já no final do século XIX, em 1884, no Palácio Vila Flor, se realizou, muito à frente do seu tempo, a primeira Exposição Industrial e Comercial de Guimarães. Aliado à vocação industrial, comercial e empresarial, emerge a busca do saber e do estudo: criação da Escola Industrial e Comercial de Guimarães (inicialmente, dita “Escola Industrial”) e a Escola de Desenho Industrial. Foi na fusão do génio empreendedor com este espírito académico que Guimarães, repetindo a história original, conquistou liderança regional, dando nota do génio empresarial de dimensão nacional e prestígio internacional.

A marca “Conquistadores” ficou ligada aos vimaranenses. O Norte tinha duas potências económicas: Guimarães e Porto. Tanto assim, que o Banco de Portugal viu-se forçado a abrir uma agência em Guimarães no início do século XX, a qual tinha a companhia de um forte ecossistema bancário, liderado, mormente, pelo Banco do Minho e pelo Banco Nacional Ultramarino. Tivesse o tecido empresarial vimaranense, no tempo certo, o apoio financeiro e fiscal do Estado para obter ganhos de escala e dúvidas não tenho que o lugar de domínio de Amâncio Ortega e da Inditex estaria ocupado por industriais e empresas vimaranenses. Verdade é: o concelho de Guimarães foi fazendo o seu caminho, mesmo constatando que o País (como sinónimo de poder central) dele se foi esquecendo, o que se acentuou ao longo dos tempos; chegados aos dias de hoje, é factual constatar tal realidade, recorrendo a uma exígua mas variada amostra: i) o Alfa Pendular foi retirado de Guimarães sem razão válida e fundamento verosímil, tardando o seu regresso; ii) Guimarães está fora do estrutural projeto para a Nação: a rede de Alta Velocidade Ferroviária Europeia (TGV); iii) realizada a Capital Europeia da Cultura, Guimarães, ao contrário de Porto e Lisboa, não teve e não tem o devido apoio financeiro do Orçamento de Estado em termos de acorrer aos custos de manutenção das infraestruturas culturais criadas; iv) o Centro de Hemodinâmica do Hospital Senhora da Oliveira, tendo sido comprado pela sociedade civil vimaranense há cerca de 4 anos, contínua absurdamente a não ter autorização para entrar em funcionamento; v) a reabilitação da Igreja de Santa Marinha da Costa é definida pelos Governos como prioritária há anos, mas nada acontece, a não ser o acentuar da degradação e do risco de ruína; vi) em termos de descentralização de competências na área da saúde, educação e acção social o envelope financeiro proposto pela Administração Central para o Município de Guimarães não cobre minimamente os custos reais; vii) em igual contexto de poder, a comunicação social de âmbito nacional, certamente por mera coincidência, só dá notícias de Guimarães quando algo negativo acontece, generalizando e parecendo querer fazer de nós exemplo pelas piores razões (para quando o devido destaque nacional às Festas Nicolinas, Gualterianas, Guimarães Jazz, Festivais Gil Vicente?..etc); Não obstante o meu olhar não esgotar o real, é patente que o País (poder central) olvidou, literalmente, o seu berço.

É tempo de pensar alto e falar claro e exigir que o País “regresse a casa”, até porque, permita-se a ironia, não consta que Portugal tenha pedido a independência de Guimarães.

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