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“Casos e casinhos…”

Filipe Fontes
Opinião \ quarta-feira, janeiro 25, 2023
© Direitos reservados
O espaço público é de difícil definição, tão difícil quanto a sua delimitação e balizamento, sendo matéria tão concreta e pétrea, quanto intangível e imaterial.

Na verdade, tudo o que dizemos, fazemos e construímos, seja individual ou colectivamente, no espaço que ultrapassa a fímbria ténue do espaço que é exclusivamente meu, será espaço público que a todos abrangerá e a todos convocará.

Porque assim é, a reflexão, discussão ou divagação (ou um pouco de tudo isto misturado e conjugado) sobre os ditos “casos e casinhos” de nomeações e demissões, contratações e indemnizações, são matéria de espaço público que, de uma forma ou outra, (também) retratam o nosso comportamento enquanto comunidade e sociedade (porque, na verdade, retratam comportamentos e procedimentos daqueles que escolhemos para cuidar de nós e se obrigam a tal) e retratam a forma como somos capazes de ler e entender os mesmos, de os enfrentar e interpretar, de os criticar positivamente e superar. Ou seja, são (também) o reflexo do que somos e queremos ser…

Ao longo dos “últimos tempos”, assistimos à sucessão de situações que reflectem um modo de actuação que importa atender e maturar, seja na perspectiva da investigação e da justiça, seja na comunicação e divulgação, seja no comportamento, atitude e ética, seja no foco e na identificação do que é essencial (e não, simplesmente, acessório e lateral).

Investigar é necessário e desejável, a todos interessando para esclarecer, corrigir, punir se for o caso, repreender, evitar, obrigar, entre outras acções de “serviço público”, perseguindo o desvio e valorizando a correcção. Não devemos acomodar ou aceitar acriticamente, não devemos silenciar ou derrotarmo-nos a nós próprios  enquanto sociedade e comunidade.  É nosso direito e dever lutar, combater e corrigir a assimetria de comportamentos e qualificar a acção pública.

Todavia, não podemos e devemos transformar a investigação anunciada num princípio da culpabilização e não podemos transformar notícias de buscas (ou buscas de notícias?), indícios (ou interrogações?), hipóteses (às quais faltam probabilidades reais e matéria para apurar e maturar) numa fatal condenação…

Pelo contrário, enquanto sociedade e comunidade, sejamos nós cidadãos, comunicação social ou a justiça, devemos exigir e perseguir sobriedade e discrição, actuando célere, imparcial e objectivamente, assegurando mecanismos justos de investigação e divulgação, sendo preventivos e cautelosos, nunca imediatistas de forma punitiva, nunca precipitando na condenação sem matéria sustentada.

Noticia-se e divulga-se estes “casos e casinhos”, assumindo, muito deles, o carácter de escândalos, escalpelizando-se todos os movimentos , escolhas e acções, num afã que chega, tantas vezes, a ser cansativo , porque repetitivo e eco da própria repetição. Abre-se a caixa de pandora, persegue-se o detalhe, mas, depois, o verdadeiro interesse que é feito de respostas a perguntas simples como porquê e para quê, muito antes do quem, onde e quando, fica simplesmente esquecido… Na verdade, surpreendemo-nos com escolhas e ajustes directos, “apontamos o dedo” a decisões e procedimentos (e não está em causa se certos ou errados, nenhum juízo de valor está subjacente) e não cuidamos de perceber e saber da real necessidade daquele trabalho. E, se necessário e contratualizado, se produziu efeito. E se a escolha foi feita para um externo à administração pública, não nos interrogamos porque é que esta mesma administração pública não tem capacidade para tal. E, se assim é tão necessário, não perguntamos porque é que, saindo a figura escolhida, o trabalho suposto fazer e tão necessário, é “abandonado”… não questionamos as causas e efeitos!

É aqui que tudo se precipita e condensa: a nossa incapacidade enquanto país, sociedade e comunidade da sobriedade da análise, da contenção da divulgação, da celeridade da investigação e da capacidade da boa conclusão. Tudo parece que fica aquém, numa sensação experimentada e transformada em realidade de que nada termina, de que algo sempre fica por esclarecer, de que muito foi criado desnecessária e despropositadamente, seja quando e quem tiver sido.

“Casos e casinhos” são o que são na sua dimensão e expressão. Situações irregulares e indevidas, indemnizações e escolhas injustas e interessadas, acções marginais às leis e regulamentos, conflitos e sobreposições de projectos e interesses também são o que são. E, por isso, interessa investigar, saber e ser consequente. Porque será esse o melhor sinal que poderemos dar: atenção  e disponibilidade para corrigir, coragem e capacidade para enfrentar, equilíbrio e conhecimento para ponderar, equidade e sensibilidade no tratamento, liberdade e igualdade entre todos e para todos!

Saber assim fazer será um bom sinal que estaremos a crescer enquanto sociedade e comunidade! E a contribuir para que estes “casos e casinhos” sejam cada vez menos, muito menos. Porque, na verdade, a constatação é óbvia: o país não precisa deles!

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