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"Re... qualquer coisa"

Filipe Fontes
Opinião \ segunda-feira, agosto 29, 2022
© Direitos reservados
Não há objetivo ou estratégia, meta ou plano que signifique “que estamos a tratar e vamos atuar” que não possua o “re”: recuperar, resistir, replicar, retomar, restabelecer, reconstruir, reabilitar...

Há muito que agosto é mês tido de veraneio ou de férias. De estio e de descanso, de prazer e de compensação. Há muito que agosto é mês “querido” e mês selecionado para a paragem prolongada do trabalho, da escolha diferenciada de um local para estar, da procura de restabelecimento de energia e motivação para os dias que cada um adivinha serem subsequentes e o futuro.

Talvez já tenha sido mais, muito mais, mas agosto é ainda o mês de férias por excelência.

Férias que carregam atrás de si o anátema, ou a qualidade, de acrescentar uma sílaba prefixo – a saber “re” - a tantos verbos, anunciando e prometendo uma repetição melhorada das nossas ações e quotidiano. Retomar, readquirir, recuperar, restabelecer… podemos prometer a nós mesmos algo mais e de mudança, podemos definir correções e novas metas, mas não deixamos de, ano após ano, de centrar este período temporal no “re": recuperar, retomar, restabelecer.

Surpresa seria se fosse doutra forma, ou não fossemos todos nós “enquanto povo de uma nação” o retrato da mesma.

Na verdade, a nação ”enche a boca” com os verbos antecedidos por “re”, quase como um selo de modernidade e atestado de competência. Não há objetivo ou estratégia, meta ou plano, programa ou outra coisa qualquer similar que signifique “que estamos a tratar e vamos atuar” que não possua o “re”: recuperar, resistir, replicar, retomar, restabelecer, reconstruir, reabilitar, regenerar, retocar, restaurar, reindustrializar, reforçar, rebater, reformar, renovar, reabastecer, redobrar, relembrar, renaturalizar, reruralizar, revigorar, num afã contínuo e profícuo de tudo repetir. Sempre com a promessa de melhoria, sempre com a amarração ao passado.

Talvez seja sinal ainda mais visível do que somos e da nossa tentação de que “é assim porque sempre foi”, numa evidência inventada de que não há futuro que contrarie o passado, não há viabilidade sem arrasto… Talvez seja ainda sinal da nossa ansiada e suspirada segurança que nos contenta “por termos um pássaro na mão…” e nos inspira nos “direitos adquiridos”.

O plano de recuperação e resiliência que nos enche “a boca e o pensamento”, que nos irá preencher (de acordo com o prometido) “os bolsos e os sonhos”, que transporta esse veículo indispensável chamado dinheiro (mas que nada faz ou resulta se não for conduzido) e que carrega essa auréola promissora de que “desta é que será” é exemplo maior deste repisar das mesmas palavras, promessas e atos.

Resiliência significa que “o corpo readquirirá a sua forma inicial”, recuperar mais não é do que reaver as qualidades desaparecidas, perdidas ou omitidas, voltando a usufruir das suas potencialidades. Tudo isto através de um plano, ou seja, um instrumento que visa antecipar o futuro, melhor preparando-o para alcançar os objetivos traçados… resiliência e recuperação. E tudo isto suportado em meios financeiros e mecanismos administrativos nunca vistos e experimentados. E tudo isto sustentado em promessas do quanto melhor e diferentes vamos ficar… Afinal, e se as palavras ainda valem o que significam, correremos atrás do dinheiro europeu para recuperar e voltar à forma inicial. Provavelmente, com mais energia, mais fortalecidos nos meios, mas regressados ao mesmo ponto de passagem deste caminho que a nação há muito percorre, que há muito insiste em percorrer… Não há aqui palavra diferenciada ou singular, distintiva, isto é, não há transformação, capacidade de corrigir e produzir diferenciadamente… não tanto de inovar, mas sempre de transformar e acrescentar.

De alguma forma, recirculamos: partimos, caminhamos, gastamos energia, giramos, rebolamos, desviamos, …, para ao mesmo sítio de partida voltar. E repetimos o processo vezes sem conta, conhecendo as suas dificuldades e défices, nunca enfrentando e transformando, apenas reconstruíndo e renovando.

Talvez seja pessimismo de quem escreve, talvez seja enviesamento analítico. E oxalá possa ser possível voltar aqui para reescrever este texto… negando a constatação de que “reescrever é voltar a escrever a mesma mensagem por outras palavras”.

Entretanto, “resiliemos”! E recuperemos a energia neste “querido mês de agosto”…

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