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E se Portugal exportasse patrões?

Esser Jorge Silva
Opinião \ quarta-feira, março 08, 2023
© Direitos reservados
Na história do “non sense” português, a figura do empresário-tipo-patrão fez-se historicamente clamando pela sua desgraça por não ter melhores trabalhadores.

Como se gosta de ouvir por aí, Portugal é aquele país no extremo ocidental da Europa que dá mundos ao mundo. Quando, no século XVI se morria à fome por aí, Portugal atirou-se ao mar e foi o que se viu. Regressados à origem, os marinheiros conseguiram a ousadia de trazer mais hectares de terra do que alguma vez se imaginasse. Ao milagre da multiplicação dos pães, a terra passou a ostentar o milagre da multiplicação de terras. Um achado! Como é sabido foi um fartote durante cinco séculos. Viveu-se bem. E barras de ouro também. A aventura terminou com o processo civilizacional a explicar que a origem dos povos nos territórios constitui direito superior ao direito de achar território por acaso.

Mas Portugal persistiu a dar mundos ao mundo. Durante a Primeira Guerra mundial mandámos soldados para as trincheiras. Na segunda mandámos Salazar dizer que não íamos, mas, enfim, o Estado Novo dava uns comboios de haveres para a Alemanha enquanto pedia ao povo que apertasse o cinto. Foi tempo de dar ao mundo em forma de comida aquilo que nem tinha para si. Um ato muito cristão este de dar e morrer de fome. Ao mesmo tempo, quando se soube que França precisava de trabalhadores para certas funções que já nenhum francês queria, Portugal foi ajudar os gauleses e, assim, a lusa terra mandou criadas de servir e mão de obra máscula para a construção civil. Foi mais mundo dado ao mundo, aliás, um prenúncio de que se mandaria vir de volta o mundo que, séculos antes, se exportara para as colónias africanas.

Chegada a modernidade passámos a comprar feito. Umas autoestradas para os carros alemães e franceses circularem, uns subsídios para abater barcos e limpar as praias para os nórdicos trazerem a sua riqueza, outros subsídios para umas casas e uns terrenos de “jovens” agricultores. E o mandar vir a malta “exportada” de regresso, inclusive com umas aberturas à vinda dessa gente do sul, esses cananeus amaldiçoados, para meterem argamassa nos moldes das obras faraónicas, entretanto caídas na sopa, um tal de Centro Cultural de Belém, essa tal ponte-mais-não-se-sabe-o-quê-do-mundo, uma denominada Exposição Universal de Xabregas e um sem número desses hodiernos templos milagrosos dominicais chamados estádios, destinados uma competição mega-top-chique de internacional. A malta até parecia rica!

Quando veio a conta, chegou o desespero. E de repente foi ver Portugal a exportar todo o ouro que havia amealhado. Agora já ninguém queria criadas ou trolhas. De Inglaterra, Alemanha, Suíça e por aí adiante chegaram apelos aos jovens. Enfermeiros, médicos, criativos publicitários, engenheiros civis, de sistemas, mecânicos e eletrotécnicos, informáticos, e só para falar de alguns, abriram alas como se fossem o Noddy. De repente, entre o nada e a hipótese de alguma coisa, Portugal foi mandado para uma zona de desconforto. Decretada o fim da preguiça interna, julgava-se estar a exportar o problema. Mas eis que, repentinamente, se percebeu estar a exportar o mais qualificado contingente de mão de obra qualificada de sempre, ficando a terrinha com quem manda.

Toda esta história de “nonsense” nasceu da feitura de uma entrevista recente a António Emílio Ribeiro. Aí, lembrava-se a figura de Nuno Simões, advogado, intelectual e político nascido em Famalicão, estudante em Guimarães. Nuno Simões foi um republicano convicto e a sua estadia em Chaves está associada à missão de defender a fronteira de entradas suspeitas antirrepublicanas. No seu testamento deixou dinheiro para a construção de três infantários. Um deles, como é sabido, fica em Guimarães. Tem, inclusive, a marca de fronteira entre o Estado Novo e a Revolução de Abril. Começou com um ministro da situação e terminou com um ministro do reviralho.

Pois, nesse mesmo infantário erigido sob os auspícios da responsabilidade social em que devia prevalecer a ética republicana do respeito pelo trabalho e pelos trabalhadores, mora neste momento um quadro de assédio a uma coordenadora pedagógica e diretora técnica que, tendo sido competente durante uma vintena de anos foi, miraculosamente, tornada incapaz, com processos que só a incivilidade e a cruel capacidade de fabricação e maquinação humana pode explicar.

Esta incivilidade é expressa na imagem histórica do típico “empresário” do género “patrão” que se faz a si próprio, não propriamente edificando-se, mas diminuindo tudo à sua volta. Na história do “non sense” português, a figura do empresário-tipo-patrão fez-se historicamente clamando pela sua desgraça por não ter melhores trabalhadores. Mas eis que as criadas, os assentadores de tijolos, os recentes jovens licenciados – enfermeiros, médicos, engenheiros portugueses, depois de saírem da tal zona de conforto, descobriram zonas de muito maior aconchego e bem-estar, envoltos em sistemas humanos de responsabilidade social. Ao invés, o Portugal “zona de conforto” continua a albergar a falta de produtividade. Podíamos exportá-los, mas desafortunadamente nenhum outro país quer tão ditosos empresários-tipo-patrão. É trágico, mas o passivo é para ficar aqui!  

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