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Não estamos todos nós sedentos de coisa diferente?

Filipe Fontes
Opinião \ quarta-feira, fevereiro 21, 2024
© Direitos reservados
Quando olhamos para as intervenções que emergem nesta região, não deixamos de nos acinzentar com o que percepcionamos. Apesar do discurso e das soluções prometidas, a “receita” parece ser a mesma.

Balançando entre a perspectiva optimista de que o desconfinamento é prenúncio de uma sobreposição da vida humana ao vírus e que o amanhã será um abraço reinventado (ainda) mais sentido e a formulação, dir-se-á, pessimista de que o vírus não desarma(rá) como companhia e presença quotidiana e que o amanhã será, permanentemente, um abraço avisado e avistado, não deixa de ser conclusão convicta e firme de que é preciso olhar para a frente com confiança e realismo, optimismo e prudência, mas nunca deixando de pensar e agir em nome da lógica da vida humana: em função do contexto, com a melhor preparação possível, caminhar na luta pela conquista da multiplicidade de felicidade(s) que, no mundo, abundam e que (assim se deseja e acredita) jamais serão vergadas a um vírus que não se vê nem ouve, que se acantona envergonhada e cobardemente.

Porque assim se afirma, se acredita e se constrói a fé, olha-se para a frente e descobre-se que, afinal, por mais contraditório que possa parecer, esta circunstância estranha e triste que se prolonga no tempo há meses, afinal também pode ser uma oportunidade. Oportunidade porque mostrou cidades limpas e livres, sem ar poluído ou ruas massacradas pelos rodados dos automóveis, cidades governadas e capazes de acudir à emergência, com leitura da realidade e actuação imediata, actores – sejam decisores e gestores políticos, população, técnicos, promotores, …- despertos e atentos que, rapidamente, perceberam este tempo como oportunidade de mudança e ajustamento, introduzindo modelos de desenvolvimento há muito apregoados, acelerando projectos e intervenções disruptivas e indutoras de reformas, compaginando este tempo novo com a nova forma de ver, sentir e transformar a(s) cidade(s) há muito aventado, sentido como necessidade e afirmada como objectivo próximo de uma realidade (quase) imediata.

Acredita-se que esta é, de facto, uma oportunidade, talvez única porque singular, contextualizada e percepcionada por todos, mas que requer duas premissas base. Ou seja, duas premissas fundamentais e verdadeiramente estruturadoras:

  1. Como escreve Noah Yarari (no seu livro mais recente) “por essa razão, a política do início do século XXI está desprovida de planos grandiosos. Governar não é mais do que administrar. Os governos gerem os países (e, acrescenta-se, as cidades), mas já não os lideram. Asseguram que os professores recebem a tempo e horas e que os sistemas de escoamento de águas não entopem, mas não fazem a mínima ideia de onde é que o país (e as cidades) estará (estarão) daqui a vinte anos”.

Ou seja, nunca como agora, foi (é) necessária decisão e coragem, determinação para avançar e “mudar o que tem de ser mudado”.

Ao longo do tempo, ouvimos e lemos múltiplas afirmações de mudança de paradigma, de alterações de conceitos e contextos (mais se conhecem por comunicações e divulgações do que por actos e efeitos) que, poucas vezes, conhecem concretização física e material e, mesmo quando tal ocorre, quantas vezes não são mitigadas, amputadas, deixadas incompletas por falta de coragem, por uma contestação desinformada, por falta de tempo para consolidar, porque, afinal, gerir e administrar o que existe torna-se mais confortável e menos ruidoso… Este é o momento da decisão – que significa dar um passo em frente e repetir o movimento sempre na mesma direcção – a da coragem – que não é a ausência de reflexão e prudência, antes ser capaz de superar tal em nome de um bem maior!

  1. Como autor anónimo disse “este é (ainda mais) a hora de falar verdade e de velar pela verdade”, o que significa anunciar, descrever, trabalhar, actuar sem esconder as causas e os efeitos. E explicar o “como”, nunca remetendo para a complexidade dos detalhes o que não se tem coragem de dizer e assumir, não oferecendo com uma mão (o “anúncio”) e retirando com a outra (a omissão e deturpação da acção). Se toda a hora é hora da verdade, esta é ainda mais a hora em que todos nós temos que acreditar que o que é dito é mesmo assim, sendo presente a todos nós o bom e menos bom da realidade!

Decidir e falar verdade são, assim, duas premissas essenciais para este tempo novo que se adivinha. Somando-se, depois, coragem. Coragem para afirmar e fazer, para liderar e ser capaz de actuar em coerência com o discurso. Na verdade, hoje, quando olhamos para a multiplicidade de intervenções que emergem nesta região, não deixamos de nos acinzentar com o que percepcionamos. Apesar do discurso e das soluções prometidas, a “receita” parece ser a mesma, numa repetição que faz pensar que este tempo feito oportunidade, fatalmente, não seja mais do que um intervalo num “modo de vida e de actuação” que nos acomoda mas não nos incomoda, que nos serena na continuação e não nos sobressalta na mudança, quando, afinal, não nos transforma em seres melhores, habitantes de cidades melhores.

Não estamos todos nós sedentos de coisa diferente?

 

* Texto escrito ao abrigo do anterior acordo ortográfico

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