O espectro de Bizâncio
Centro económico e cultural da Europa Oriental e do Próximo Oriente, durante mais de um milénio, e herdeira política de Roma nesses territórios, a cidade de Constantinopla – a Istambul dos nossos dias – foi um polo permanente de atração e influência. Embora o território do qual foi capital sempre se tenha chamado "Império Romano", até à sua extinção, no século XV, o ocidente celebrizou-o, já depois do seu desaparecimento, pela designação de "Império Bizantino", derivada do nome da cidade capital anteriormente ao século IV: Bizâncio.
Consequentemente, a influência artística exercida na Europa Ocidental, sobretudo na Alta Idade Média, é também conhecida como arte bizantina, embora a sua presença se observe mais nas soluções decorativas e nas formas arquitetónicas de algumas construções, genericamente enquadradas em conceitos artísticos locais.
O revivalismo da arquitetura bizantina, a partir dos meados do século XIX, é também conhecido pela designação de Neobizantino. Dele terá bebido, entre várias outras influências artísticas, o jovem arquiteto José Marques da Silva que, recém-chegado de Paris, onde se tinha diplomado, na Escola Nacional de Belas-Artes, trouxe para Portugal conceitos inovadores, nas obras que realizou sobretudo no Porto, mas também em Guimarães. Aqui chegado com a incumbência da finalização do novo santuário de São Torcato, assume o projeto da nova sede da Sociedade Martins Sarmento, no que viria a ser apenas a primeira fase da obra, com fachada principal para a rua Paio Galvão e fachada lateral para a rua Avelino da Silva Guimarães.
As raízes medievais de Guimarães não estiveram seguramente alheias a um projeto que pretendeu evocar diferentes elementos da arquitetura medieva europeia. Ali temos o românico, algo de visigótico (com o ecletismo que, já por si, esta designação encerra), de moçárabe e de bizantino, nos arcos, colunas e capiteis de uma fachada que ainda hoje impressiona quem por ali passa.
Dos elementos que mais nos sugerem este "espectro de Bizâncio" temos as três semicúpulas que evocam a Etnografia, a Arqueologia e a História, sobre os três varandins da fachada. Não teriam o mesmo impacto sem os extraordinários frescos operados por um outro artista, o então jovem pintor vimaranense Abel Cardoso, demonstrando uma perfeita adequação à ideia global do projeto e ao pensamento do mestre Marques da Silva. Estes frescos sugerem e anunciam a viagem ao passado, que o Museu e a Biblioteca, que já então funcionavam no interior do edifício, propiciam.
Abel Cardoso trabalhando nos frescos dos varandins da sede da SMS (fotografia da Fundação Marques da Silva)