O mundo ao contrário...
O mundo parece ao contrário, ouve-se a canção e quase acreditamos que vivemos essa realidade, tão próximos parece estarmos desta “percepção” (palavra tão em voga e que acoberta tanto e tantas coisas).
Na verdade, hoje, experimentamos uma miríade de sensações e impressões, ouvimos uma multiplicação de discursos e comentários, visualizamos muitas acções, por vezes inconsequentes, outras vezes, punitivas e inimagináveis, estranhamos tanto que nos invade esta constatação: o mundo está ao contrário!
Talvez (também) por isso, valerá a pena ousar construir e perseguir esse exercício, ainda que em abstracto e em sentido figurado… afinal, há coisas que, por mais verosímeis que possam vir a parecer, é melhor permanecerem acantonadas, mesmo num mundo figurado.
A pretexto da dita “lei de solos” — que, de nova, nada tem, tamanha é a repetição do mesmo modelo: legislar sobre excepção, excepcionando a excepção; legislar para mitigar o efeito e não para sanar a causa; legislar como passo de magia de resultado rápido para processo complexo e moroso — sejamos criativos e configuremos o mundo “de pernas para o ar”.
Neste mundo tão imaginário quanto próximo da nossa realidade, a administração pública submete à aprovação da população pedidos de autorização de ocupação de solo e de construção, questionando da viabilidade da urbanização para onde “nós temos o nosso quintal ou jardim”, perguntando da possibilidade de pavimentação de ruas ou criação de passeios. Depois, existirá também um imposto sobre o uso da paisagem, taxando (onerando) as construções com janelas, varandas, terraços maiores, uso de cores garridas, cobrando quem mais usufrui e impacta visualmente a mesma paisagem. E criar-se-á outro imposto sobre o uso não maximizado das infraestruturas. Se “naquele terreno” onde quero construir a minha habitação, é admissível construir mais área e unidades de ocupação, estando as infraestruturas públicas preparadas para tal carga, então “pague-se imposto” sobre a não rentabilização do terreno, das infraestruturas e do investimento público. E invente-se taxa e imposto sobre a arborização existente em cada terreno e a contaminação que, tantas vezes, é gerada no espaço público com folhas, ramos, cheiros, pólen e mais, obrigando a despesa pública de limpeza e tratamento do espaço de todos nós.
Fará sentido?
Naturalmente, a resposta é negativa, é obvio que não! Afinal, por muito que o mundo se reinvente e se mostre incompreensível, há razões para as causas e sentido para os efeitos. E, o mais grave, independentemente da concórdia ou discórdia, da aceitação ou da recusa, é tudo fazermos para apagar, disfarçar, omitir causas e efeitos, quase como se a vida fosse uma bolha individual, feita por nós, para nós e só a nós dizendo respeito.
Talvez por isso, é que o mundo pareça ao contrário (talvez, um pouco à imagem deste texto, também ele, aparentemente, errático e sem sentido, mas sinal do tempo…). Afinal, ele foi criado para a comunidade se acomodar e viver em colectivo, não para ser palco individual e egoísta… Tudo se joga nesta dialética do individual e do comunitário, do eu e do nós, na certeza de que os segundos (nós) não vivem sem o primeiro (eu), mas, ainda com mais certeza, a vida dos primeiros (indivíduos) só faz sentido enquadrada nos segundos (comunidade).
Valerá a pena pensar nisto enquanto o mundo não dá uma cambalhota. E de tão pesado ficar, a sua inércia dificultar a retoma da sua posição inicial.
Eu não quero viver com a cabeça virada para baixo. Mesmo que o mundo não seja tão azul quanto desejo!