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O valor da palavra...

Filipe Fontes
Opinião \ quarta-feira, outubro 30, 2024
© Direitos reservados
A cidade é um produto e um processo, uma imagem e uma realidade cristalizadas num momento próprio, uma dinâmica e uma continuidade que se renova e altera, rompe e conserva a todo o tempo.

A cidade é o resultado de um compromisso que cruza e conjuga uma diversidade de riqueza e debilidade, oportunidades e dificuldades que a configuram tão exigente e complexa quanto desafiadora e aliciante, tão e tanto que, por razões evidentemente fundadas, é tida como a invenção mais complexa e “intrincada” do Homem.

Porque assim é, a cidade é um produto e um processo, uma imagem e uma realidade cristalizadas num momento próprio, uma dinâmica e uma continuidade que se renova e altera, rompe e conserva a todo o tempo, em qualquer tempo e espaço.

Perante esta complexidade e necessidade, enquanto acto de acomodação de vários interesses legítimos e da salvaguarda de tanto que “mexe e remexe, vira e revira” na cidade, o valor e clareza da palavra é essencial, já que é esta que suporta a comunicação das partes, o diálogo entre as partes, veículos que se demonstram incontornáveis ao bom entendimento e consensualização das mesmas partes, materializadas no denominado compromisso!

Valor e clareza da palavra que se julga não serem valores relativos ou mutáveis de parte a parte, de pessoa a pessoa, pelo contrário! Embora aceitando, e aos mesmos sendo inevitável, matizes, o valor e a clareza da palavra fundem-se no princípio da ética e da moral, da honra e do direito. Isto é, recorrendo-se a expressões ditas “populares”, de alguma forma antigas e que, por vezes, se têm como “em desuso”, “palavra dada, palavra honrada”, “palavra que só tem um sentido e significado”, “não há duas palavras para a mesma coisa”.

Num momento em que a palavra se generaliza como arma de arremesso (e não como veículo de comunicação), se manipula como táctica (e não como ferramenta de entendimento), se deturpa e adultera por conveniência (e não em nome da verdade), regressar a este valor e a esta clareza revela-se tão imperativo quanto fundamental, útil, necessário e indispensável!

E tal conseguir-se-á através do reforço e privilégio da ética, da assunção da “palavra dada”, do seu reforço ou correcção, da sua repetição ou substituição, sempre na verdade e bondade e não usarmos as palavras conforme as conveniências e dependências, interesses e vontades, num exercício egoísta de comando da cidade “ao nosso serviço”.

Tudo isto a propósito do quanto anunciamos e nos demonstramos favoráveis à densificação e centralidade urbanas e, depois, negamos as mesmas por divergências processuais ou colaterais, “ruído” e contestação pueril, infundado ou não sustentado, tantas vezes (ou regra geral), inventando relações ou conexões com suporte interpretativo legal tão estrito e afunilado… que tudo se torna para lá do minimamente compreensível. Embandeiramos a infraestruturação e o espaço público, o investimento habitacional e a criação de modos de mobilidade “amigos e diferenciadores”, mas socorremo-nos do “jargão” esvaziado de pertinência, do comportamento social delimitado ao “nicho”, da culpabilização fácil e imediata para tudo alimentar na continuidade, ou ainda pior, no reforço do conservadorismo, fomentando um atavismo, por vezes, paroquial que nos surpreende muito para lá da surpresa! E ainda usamos o discurso público como ferramenta de manipulação e condução da “opinião pública” para o encontro da “nossa posição e interesse”… porque, na verdade, devemos saber, temos obrigação de praticar o correcto e rigoroso significado das palavras: reprovar é diferente de indeferir e diferente de convidar a aperfeiçoar; inviabilizar é diferente de retirar ou interromper; aprovar não significa discriccionar e autor nem sempre é responsável, como projecto não é processo, autorização não é criatividade, e tanto, tanto mais. E quanto confundimos e sobrepomos palavras assim, sem pensamento ou (mínimo) rigor?

A linguagem é a fundação de comunidade e cola agregadora do seu crescimento e desenvolvimento. E causa e efeito para o entendimento e para a polémica. Para a saudável interacção de todos com todos.

Assim saibamos retirar da palavra a sabedoria que a mesma encerra. E a utilidade que encerra para uma vida melhor! Assim saibamos…

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