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O valor do significado da palavra…

Filipe Fontes
Opinião \ quarta-feira, março 22, 2023
© Direitos reservados
É consensual que comunicar é parte essencial de uma relação saudável e equilibrada.

Comunicar para dar a conhecer, para possibilitar entender e para abrir a oportunidade de rebater, contestar ou acrescentar num processo que muitos chamam diálogo, outros de negociação, outros ainda de discussão, outros mais ainda de concertação… Sempre, e seja que nome for, em favor do entendimento e clarificação, partilha e optimização.

Verdadeira comunicação nunca significou perda ou prejuízo, é uma permanente abertura ao futuro e, assim, à esperança de construção de um dia seguinte melhor, sempre melhor!

Assim sendo, falar enquanto acto verbal de escolha das melhores palavras para expressar o que pensamos, sentimos ou visualizamos é ainda mais fundamental, tão fundamental que, para este acto, não chega a nossa vontade e necessidade. Carece de regras e normas na construção e no significado, numa disciplina ordenada para melhor compreensão e potenciação.

Hoje vivemos um tempo de suporte e permanente comunicação, onde tudo se divulga, anuncia e discute, seja porque as plataformas e meios de difusão e partilha são muito mais extensos e intensos, seja porque os assuntos e temas comuns são (aparentemente) muito mais valorizados e atendidos, seja simplesmente porque as pessoas estão (aparentemente) muito mais dispostas à participação e ao compromisso.

Todavia, é convicção de que, como hoje, essa comunicação, nunca registou tanta deficiência e divergência no acto de falar (na prática, o acto que operacionaliza e coloca em prática verbal a comunicação), escolhendo-se, tantas e tantas vezes, palavras violentas e injustificadas, ora optando-se por palavras brandas e de compromisso interessado, ora por palavras que conhecem o silêncio ou são alvo de novas e surpreendentes interpretações e (re)invenções.

Acresce que as opções mais recorrentes para “falar” são as plataformas digitais onde a liberdade de expressão não tem amarras nem freio, mas parece impotente para evitar e conter excessos, são os meios de comunicação social e uma exposição mediática permanente, geradora de uma pressão “comentarista” que obriga ao uso da palavra “a toda a hora e por tudo”, consequentemente, levando à repetição e à precipitação na escolha, é a “rua” que motiva manifestações grupais emocionais e acaloradas.

Na verdade, reconhece-se que o tempo actual não facilita o tempo da comunicação e este revela dificuldades em acompanhar a mudança que, cada vez mais, se instala no quotidiano de todos nós.

Talvez por isso, ou seguramente por isso, é que a estabilidade do significado, a sua valorização e partilha entre todos se apresenta fundamental, já que, e antes de mais qualquer coisa, será esta estabilidade e partilha do significado das palavras (e do seu campo de entendimento) que garantirá uma comunicação saudável e compreensível, um emissor e receptor em sintonia no “discurso falado”, ainda que passíveis de fortes divergências de análise e pensamento.

O campo de discussão e reflexão que se abriu com a apresentação de múltiplas medidas e acções de actuação sobre o tema da habitação, bem como o posterior debate e discussão pública que se visibilizaram depois, ilustram esta cacofonia comunicativa, num registo em que a (mesma) palavra tem diferentes valores e significados em função das pessoas e interesses.

Palavras e expressões como devoluta, coerciva, acessível, indignidade habitacional que julgávamos consensualizadas e estabilizadas, afinal, encontram múltiplas variações e divergências, no limite, tantas quantos aqueles que comunicam. E, talvez por isso, é que estas “discussões” e comunicações têm tanta dificuldade em gerar entendimento, em serem alvo de análise e escrutínio equilibrados e saudáveis. Pelo contrário, alimentam a divergência, o desencontro e a acusação de que não se quer entender ou fazer entender, num resultado final triste e pobre, retrato de que uns e outros não se compreendem, mas que todos se julgam “donos da razão”. E, assim, invertendo o ditado popular, porque todos têm razão, em nenhum há vontade. E vontade genuína e sincera para comunicar, concertar, colaborar, implementar e conquistar bem precisamos para enfrentar este enorme desafio habitacional que se depara. E vontade genuína e sincera é preciso para oferecer razão ao processo. Se é verdade que não há sociedade sem comunicação, não menos verdade é de que não há governo possível sem razão…

Onde está ela?

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