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Rui Antunes
Opinião \ segunda-feira, março 13, 2023
© Direitos reservados
A responsabilidade de apoiar as vítimas é da instituição. É a Igreja Católica que deve compensar os danos morais e disponibilizar o acompanhamento psicológico adequado.

A publicação do relatório pela Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa veio confirmar a tragédia que toda a gente desconfiava. À semelhança dos relatos já conhecidos de países estrangeiros, o abuso sexual de menores acontecia em vários espaços religiosos e, quando denunciados, eram ocultados pelos membros da hierarquia. Os números são avassaladores: 512 testemunhos validados em nove meses de investigação; desde 1950 podem ter sido vítimas mais de 5 mil crianças. Um terror impossível de ser ignorado, exceto pelos bispos portugueses.

As conclusões da reunião da Conferência Episcopal Portuguesa foram ridículas, apesar da expetativa. Por um lado, é estranho que os bispos que ao longo dos anos ocultaram os crimes continuem a tomar decisões. Por outro, a estratégia de comunicação foi absurda para quem tem como principal atividade passar a palavra. Queriam instalar a confusão com cada bispo a dizer coisas diferentes, sem fazer nada, à espera que o assunto seja esquecido. Mas a condenação foi unanime, porque às vítimas é-lhes devida justiça e respeito.

A ideia de cada diocese decidir o que entender pretende ilibar a Igreja Católica da enorme responsabilidade no que aconteceu. Os abusos foram continuados porque os agressores estavam protegidos pelos superiores, que abafavam os casos para defender o nome da Igreja Católica. Esta atitude de ignorar o problema afetará ainda mais a instituição. A credibilidade e a moral da Igreja será completamente destruída se continuar sem agir perante a realidade, cuja crueldade fica evidente neste relatório.

A responsabilidade de apoiar as vítimas é da instituição. É a Igreja Católica que deve compensar os danos morais e disponibilizar o acompanhamento psicológico adequado. Não há dinheiro que pague estes traumas, mas é possível estabelecer uma quantia para compensar o dolo provocado pelo que aconteceu. Como também deve, em articulação com associações de apoio a vítimas da sociedade civil, criar respostas sociais para que estas pessoas possam tentar ultrapassar e seguir com a sua vida de uma forma saudável, curando as lesões psicológicas e psiquiátricas.

Enquanto sociedade temos também de retirar consequências sociais e políticas. Não é possível que tudo fique na mesma, mantendo-se as condições que promoveram esta tragédia. Desde logo, o Ministério Público deve perceber como foi possível tantos crimes terem passado impunes, sem investigações e acusações. A Assembleia da República, Presidente e Governo devem repensar a relação com a Igreja Católica, porque ninguém está acima da lei, encontrando mecanismos para prevenir futuras situações. Deve-se combater o fechamento das organizações religiosas à sociedade civil, como escolas e seminários, para que todas as crianças sejam educadas nos meios sociais onde vivem, e futuramente vão trabalhar, assim como acesso a educação sexual, para conseguiram identificar e denunciar casos de abuso a que possam estar sujeitas.

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