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Guimarães
09 junho 2026
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“Ser o que não posso ser”

Filipe Fontes
Opinião \ terça-feira, junho 09, 2026
© Direitos reservados
Cidade não é indiferente ao tempo passado, mas não pode ser passiva relativamente ao tempo futuro. Tem de saber manter e prolongar, quando se justifique. Deve romper e mudar, quando necessário.

Já tantas vezes repetido e sublinhado, a Cidade é a invenção mais intrincada, complexa e brilhante do Homem.

É palco de diversidade, democracia e desenvolvimento. É resultado do ser humano, das relações que estabelece com o outro e da cumplicidade com o suporte físico inevitável. É fruto da capacidade de acomodação, de transformação e de inovação. É economia, sociedade e cultura. É construção, produção e investimento. É abrigo, conforto e luxo.

Não pode ser lugar de unicidade acrítica, estagnação e autoritarismo. Não deve ser imposição, automatização e mecanização sem lugar à humanidade, racionalidade e compreensão. Não pode primar pela ausência de contestação, insatisfação e exigência. Não deve resultar em atavismo, conservadorismo e monotonia. Nem em amorfismo e apatia. Novamente, em pobreza!

A cidade pode ser vibrante e dinâmica, diferenciada e singular, sabendo relacionar-se harmoniosamente com o contexto natural que a informa [e enforma], sabendo produzir valor nas relações que os seus membros geram e materializam, sabendo criar riqueza com as invenções, transformações e inovações potenciadas.

E a cidade não pode ser espaço indiferenciado, sem moda ou atracção, de simples existência e sobrevivência, sem apelo ou futuro.

Entre o que pode e o que deve ser, o que é e o que não consegue ser, a Cidade é o espelho fiel das gentes que a habitam e daqueles que a governam, nunca esquecendo de que a mesma é fatalidade e oportunidade, legado e perspectiva: tudo o que se faz e fez condiciona o futuro. Tudo o que se fará poderá ser sempre mais e melhor.

Como tal, a Cidade não é indiferente ao tempo passado, mas não pode ser passiva relativamente ao tempo futuro. Tem de saber manter e prolongar, quando se justifique. Deve romper e mudar, quando necessário.

E tal poderá expressar-se de múltiplas formas: na capacidade de atrair investimento, de fixar habitantes, de transformar visitantes em turistas feitos cúmplices dos habitantes, em gerar cultura singular, em inovar na sua governação, em produzir singularmente, em projetar-se como mais-valia e realidade que cresce, em vez de apenas aumentar, que é equilibrada sem ser equilibrista, que é, para além de estar! Tal encontrar-se-á na satisfação e qualidade de vida do quotidiano urbano, síntese materializada e expressa, intencionalmente denunciada no momento maior do exercício da democracia: eleições, voto e respectivo resultado. Manutenção ou mudança, conservação ou reforma, prolongamento ou ruptura.

Há muito que se sabe o que a Cidade deve ser. E há muito que se conhece o que a Cidade é. Tal como há muito sabemos que a Cidade não pode ser o que é. E que tem de mudar para ser o que deve ser. E que o pode ser.

Denunciar o que não se quer e acreditar que o que deve ser é possível foi o resultado do último acto eleitoral em muitas cidades. Que este seja o tempo de caminho e transformação dessas cidades, as quais, seguramente, [ainda] podem ser o que devem ser. E assim contribuir para a confirmação de que a Cidade é a invenção mais brilhante do Homem.

Está na hora de fazer caminho!

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