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25 fevereiro 2024
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Min: 17
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20,376 km/h

Shinrin-yoku ao estilo africano

Ruthia Portelinha
Opinião \ sábado, abril 01, 2023
© Direitos reservados
Afinal há montanhas na Costa do Marfim, algo facilmente esquecido entre os habitantes da capital. Chegamos a Man, a região das 18 montanhas próxima da fronteira com a Libéria...

O avião parece de brincar, mas serviu o propósito de esmagar quase 600 quilómetros que se traduziriam em 10 horas de caminho, caso fossemos corajosos para optar pela estrada repleta de crateras. À medida que o avião de brinquedo perde altitude, o relevo vai ganhando importância e dimensão.

Afinal há montanhas na Costa do Marfim, algo facilmente esquecido entre os habitantes da capital. Chegamos a Man, a região das 18 montanhas próxima da fronteira com a Libéria, e Laura, a suíça que me acompanha nesta aventura, parece particularmente feliz, revelando uma alegria quase infantil de quem cresceu entre grandes cordilheiras e esteve demasiado tempo em baixas altitudes.

Claro que não há comparação possível entre estas paragens e a imaculada Suíça. Cada detalhe de Man revela que estamos num destino pouco explorado, pouco desenvolvido e pouco limpo. Os dizeres pintados a tinta num muro, aludindo a uma “ville prope” (uma cidade limpa), parecem uma anedota, com a berma repleta de lixo, estradas de terra que partem da principal, asfaltada, motas em contramão, táxis a perderem peças.

Apanhamos um desses táxis verdes, sem puxadores ou manivelas para fechar os vidros, para alcançar o ponto de partida da primeira caminhada. O jovem taxista lança-se morro acima, fintando os buracos sem grande empenho, aproveitando o trajeto dos turistas para conduzir um gato bebé até à sua aldeia. Augustin, o nosso guia local, transporta o bicho no colo durante uns bons 15 minutos: os saltos somam-se aos miados aflitos do bicho, ao barulho da viatura que parece desconjuntar-se e à música que grita do autorrádio. Não é o início de dia mais zen de sempre.

Finalmente começamos a nossa jornada de 20 quilómetros no Mont Tonpki. O calor do dia e o esforço rapidamente deixam t-shirts ensopadas, rostos vermelhos e a respiração entrecortada. Apesar disso, sinto-me revigorada, mais viva do que nos últimos meses. A mesma sensação repete-se na manhã seguinte, durante a desafiante escalada ao “Dent de Man”, sob o sol africano direto, fintando plantações de coqueiros, cacau, café.

Devemos o cativante conceito de shinrin-yoku aos japoneses: o banho de floresta meditativo que vêm estudando e promovendo nos últimos anos, com benefícios físicos e emocionais. Só que em África a imersão na natureza nunca é serena, revela-se antes pulsante, com a floresta plena de sons, os humanos engolidos pela vida circundante.

Ainda que acalorado e cheio de adrenalina - não pisar o carreiro de “magnans”, as formigas legionárias -, o shinrin-yoku ao estilo africano ensina a vivermos o aqui e agora, sem pressa do que virá, seguros de que haverá poucas sensações tão boas como uma leve brisa num dia escaldante, o barulho do vento nas copas das árvores, o piar do calau no seu regresso a casa.

O mesmo avião de brinquedo transporta-nos de regresso à realidade do trânsito e das multidões, dos pedintes e da poluição. Sentada no interior abafado, anseio já pelo próximo banho de floresta. Como será o  shinrin-yoku ao estilo europeu?

Ruthia Portelinha, viajante e autora do blog O Berço do Mundo

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