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Sobre a iconografia do "Túmulo dos Quatro Irmãos"

Gonçalo Cruz
Opinião \ quarta-feira, fevereiro 28, 2024
© Direitos reservados
Estes mortos de Sande não seriam propriamente oriundos dos meios aristocráticos da época, mas de uma classe suficientemente remediada – o caso dos artesãos e dos guerreiros profissionais.

Finalizando as curtas reflexões que temos vindo a publicar sobre o curioso monumento de São Martinho de Sande, não podemos deixar de referir um aspeto chamativo do conjunto, a decoração visível em alguns dos elementos pétreos que formam o conjunto. Como já defendemos, os elementos de necrópole que vemos no local indiciam ter sido reaproveitados aquando da construção do conjunto, fosse anterior ou posterior à existência da fonte. Ou seja, as três tampas de sepultura e as duas estelas funerárias existentes no local (um terceiro esteio vertical pode ter sido também uma estela que foi posteriormente fragmentada) fariam parte de um antigo cemitério e foram ali reutilizados. As duas estelas discóides mostram, cada uma, uma cruz pátea, ou patada. Das três tampas, uma tem também uma cruz pátea e as outras duas mostram uma espada gravada no sentido longitudinal.

A associação das cruzes páteas a ordens religiosas e militares como a do Templo, de Malta ou de Cristo, tornou-se muito comum em épocas posteriores à Idade Média, porque as insígnias destas três ordens são formalmente cruzes páteas e, embora elas sejam distintas em vários pormenores, podem ser facilmente confundidas, sobretudo depois do período medieval. Recordemos a associação feita pelo pároco de 1758, entre estes elementos de sepultura e a Ordem de Cristo, bem como os seus antecessores Templários. Não estará alheio a esta interpretação do pároco o facto de São Martinho de Sande ser então, e desde há séculos, comenda da Ordem de Cristo.

Uma das estelas funerárias discóides do Túmulo dos Quatro Irmãos

Contudo, esta associação tem vindo a ser relativizada, tendo em conta a utilização recorrente de cruzes páteas na Idade Média, em elementos e em edifícios, tendo ou não ligação a alguma destas três ordens. O significado das cruzes em elementos de sepultura é idêntica à das cruzes nos cemitérios atuais: identificam o sepultamento de cristãos. Já as espadas serão um elemento de atribuição profissional, tendo por certo sido homens de armas, estes mortos de Sande. Não seriam propriamente oriundos dos meios aristocráticos da época, mas de uma classe suficientemente remediada – o caso dos artesãos e dos guerreiros profissionais – para mostrarem uma sepultura esculpida, cuja superfície, no caso das tampas, estaria à vista, e não enterrada, como seria o caso das sepulturas mais frustres.

Para nós, nos dias de hoje, esta iconografia, bem como a configuração das tampas e estelas, são importantes elementos de datação, que nos dão a sua cronologia medieval. De acordo com a investigação desenvolvida por Mário Barroca, na década de 1980, sobre as necrópoles medievais do Entre Douro e Minho, as tampas de sepultura e as estelas com elementos gravados com carácter auspicioso ou de proteção espiritual, enfim, como também os símbolos de identificação profissional, surgem a partir dos finais do século XII, sendo muito característicos dos séculos XIII e XIV.

Tal será a datação da necrópole de onde podem ter sido retirados estes elementos, formalmente comparáveis, por exemplo, a várias tampas identificadas na igreja de São Miguel do Castelo, em Guimarães.

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