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Luísa Alvão
Opinião \ terça-feira, setembro 28, 2021
© Direitos reservados
Há uns anos, numa mesa da esplanada da Praça da Oliveira, conversava com um amigo sobre o acto de mentiras.

Debatíamos sobre a questão das chamadas mentiras piedosas, se teriam consequências ou não. E ouvi algo que nunca tinha pensado, mas que, desde aí, recordo com alguma regularidade.

Dizia-me então o meu interlocutor: todas as mentiras, por mais pequenas que sejam, tem consequências. Quando mentimos, ferimos o tecido que nos une como comunidade. Explicou: a vida em sociedade, tal como a conhecemos, só funciona, porque confiamos uns nos outros. Saímos de casa todos os dias, sem pensar demasiado no assunto, porque acreditamos que as pessoas com quem nos vamos cruzar são pessoas de boa índole que, todos os dias, estão a fazer o melhor que podem e sabem para serem membros úteis da sociedade. Confiamos em estranhos quando deixamos os nossos filhos nas escolas pela primeira vez, confiamos quando vamos a um restaurante, confiamos quando vamos ao hospital, confiamos quando conduzimos, confiamos quando construímos relações com os outros, sejam estas de que natureza for. Todos os dias confiámos e todos os dias esperamos o melhor de todas as pessoas e instituições com que lidamos.

Na passada noite eleitoral, aconteceu um fenómeno estranho. Ouvindo as reacções dos diversos candidatos e partidos políticos, damos conta que todos ganharam as eleições.  Para mim, este é um fenómeno um tanto estranho. A ver.

Nas eleições do último domingo, autárquicas, foram votar 53,65% dos eleitores portugueses. Nas últimas Presidenciais, os eleitores efectivos ficaram-se pelos 39,42%, e nas últimas Legislativas, o nosso governo foi eleito com 48,57% do universo possível de eleitores.

Na curta história da nossa democracia – as primeiras eleições livres foram em 1975 – a abstenção aumentou 8 vezes. Para um país que conquistou o direito de voto há menos de 50 anos, diria que o entusiasmo com a democracia tem decrescido rapidamente. Entre aqueles que não são democratas e que, por isso, exercem o seu direito de não validar um sistema político em que não acreditam, e todos aqueles que encontram coisas melhor para fazer do que exercer um acto de cidadania e participar na escolha dos seus representantes políticos, eu diria que dificilmente, nas últimas eleições, temos tido vencedores de alguma coisa. Aliás, acredito que a democracia tem perdido.

É muito fácil justificar estas percentagens de abstenção com o Sol, a chuva, o futebol ou outra desculpa qualquer. A verdade é que a culpa desta elevada abstenção só pode ser imputada ao nosso sistema político, porque claramente, é este que está a ser desacreditado continuamente e assobia para o lado como se não fosse responsabilidade sua. A relação entre representados e eleitores tem de ser repensada, discutida, aberta, transparente. É responsabilidade dos nossos políticos criarem as condições para que cidadãos confiem no sistema, nos políticos, nas instituições. Ao falharem com os seus representados, os nossos representantes falham como o próprio sistema. Esta desconfiança no sistema, a curto prazo, será insustentável.

Aos recentes eleitos, um pedido. Façam melhor.

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