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Cercas e Reconquistas

André Teixeira
Opinião \ sexta-feira, junho 14, 2024
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Aqueles que pedem ao PS que o aprove não compreendem o perigo de deixar a oposição nas mãos da extrema-direita, que historicamente cresce com base nos ressentimentos contra quem quer que seja.

Durante anos, Portugal não se preocupou com o vírus da extrema-direita que assolava as capitais europeias, vendo com algum desdém as dificuldades dos nossos vizinhos em lidar com partidos antidemocráticos que haviam sido democraticamente eleitos para as suas instituições. Mas tudo se resumia à geografia: estar na periferia significa que tanto as boas como as más tendências demoram a cá chegar. O sonho acabou, e com meia centena de radicais antirrepublicanos no Parlamento e um antieuropeísta apregoador de teorias de conspiração a caminho do Parlamento Europeu, será difícil negar que temos efetivamente um problema. No momento crítico em que vivemos, temos no Governo um partido de centro-direita que acredita que apenas abraçando as causas e táticas da extrema-direita conseguirá seduzir os seus eleitores. Apesar de aparentar ser razoável, esta estratégia está amaldiçoada de raiz, inclinando todo o campo para a direita e polarizando o eleitorado. A eliminação do centro apenas reforça o radicalismo e fortalece o sentimento de pertença a um de dois campos que recusam tocar-se, apesar da crescente fragmentação partidária.

Tendo em conta os resultados das últimas eleições, a posição do atual Governo não é de todo invejável. Com os socialistas à espreita pela esquerda e o mostrengo pela direita, e sem a possibilidade de aprovar o que quer que seja sem negociar com uma destas forças, o Governo do PSD aparenta ter como data de validade o próximo Orçamento de Estado. Aqueles que pedem ao PS que o aprove não compreendem o perigo de deixar a oposição nas mãos da extrema-direita, que historicamente cresce com base nos ressentimentos contra quem quer que esteja na governação. Se a esquerda não se apresentar como alternativa à governação do PSD, o resultado poderá ser uma transferência de votos para a restantes forças de direita. Ninguém quer também causar novas eleições, tendo em conta a tendência para a valorização do partido do poder e o cansaço eleitoral que poderão enfrentar os cidadãos, chamados às urnas com demasiada frequência. Não existe resposta simples para tal quimera, mas devemos recordar que colaborar com a extrema-direita nunca a prejudica e que a normalização é o seu caminho para o poder.

A longo prazo, a salvação passará por educação política generalizada, capaz de formar e preparar os cidadãos do futuro para as efetivas dificuldades e realidades de um mundo cinzento de problemas complexos, e por uma União Europeia capaz de deter os excessos dos seus Estados-Membros. A curto prazo, a solução poderá passar por uma efetiva cerca sanitária como na Alemanha, com todos os riscos que poderão advir de uma grande coligação pró-democrática que potencie a narrativa de “eles são todos iguais”, ou do bruto investimento em soluções para as maleitas que influenciam o voto de protesto, como a ausência de habitação acessível ou os baixos salários. Precisamos de reconquistar a classe trabalhadora, desiludida com os resultados insuficientes de quase uma década de governação socialista, para que apenas reste à extrema-direita os restos que lhe são naturais. Não sendo provável que este Governo faça as escolhas necessárias, a esquerda deverá proporcionar uma visão de futuro mais otimista. Podemos e devemos aprender com os nossos erros; em Guimarães, em Portugal e na Europa, podemos e devemos fazer melhor.

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