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“Da Rússia, com Amor”

André Teixeira
Opinião \ quarta-feira, março 23, 2022
© Direitos reservados
É essencial tirar algumas ilações do conflito que vemos desenrolar-se perante os nossos olhos, para que consigamos retirar dele mais do que apenas dor, miséria e a sensação de que regredimos 50 anos.

A Europa está novamente em guerra. A invasão da Ucrânia pela Rússia, motivada por um conjunto de preocupações estratégicas quanto ao perímetro de segurança russo face à NATO e pela obsessão imperialista de um autocrata endoidecido, é a maior operação militar em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial.

É essencial que condenemos esta suposta “operação militar especial” como ela é: um ato injustificado de agressão contra a soberania de um país democrático e independente. As imagens que recebemos são dramáticas. Cidades e civis a serem bombardeados, refugiados a fugir de forma desordenada por estradas alagadas, tanques avançando em colunas pelas planícies. É essencial que tiremos algumas ilações do conflito que vemos desenrolar-se perante os nossos olhos, para que consigamos retirar dele mais do que apenas dor, miséria e a sensação de que regredimos 50 anos na história do velho continente.

Em primeiro lugar, creio que podemos afirmar que, com esta invasão, Putin ajudou a criar definitivamente a identidade nacional ucraniana. A Ucrânia solidificou a sua posição como nação conhecida e reconhecida, repleta de cidadãos guerreiros e patriotas, com um corajoso líder que não abandona o seu povo e pede aos americanos munições e não evacuação. Se anteriormente o estatuto deste país era instável, algo perdido entre a herança histórica e as fronteiras administrativas da região, agora podemos afirmar que com ou sem ocupação a Ucrânia perdurará enquanto nação.

Daqui retiramos também uma segunda ideia, a da reforçada necessidade do estado-nação enquanto entidade base das relações internacionais. Poucas coisas como uma ameaça externa incontornável conseguem revigorar a importância do patriotismo como mecanismo de defesa de um povo, contra um ideal de globalismo vazio onde o leninismo e o neoliberalismo timidamente se tocam.

Não são só as classes que separam as pessoas, ou as forças de mercado que criam divisórias arbitrárias. Não, a nação enquanto aglomerado de cidadãos com uma identidade partilhada permite assegurar estabilidade num mar de incertezas, e apenas ela consegue assegurar proteção contra um agressor desproporcionado. Sendo o internacionalismo importante e a noção de comunidade global essencial, não podemos esquecer a relevância da nossa identidade “local”, não como meio de exclusão ou xenofobia, mas como modo de fixação da cidadania, algo essencial em democracia.

Em terceiro lugar, a Europa acordou para a realidade de que a paz não é inevitável e de que a sua dependência energética do gigante russo é uma terrível fraqueza. Acordamos hoje para uma União Europeia que sente necessidade de ter uma política externa partilhada, para uma Alemanha que se volta a rearmar e para uma NATO que sente finalmente a sua existência justificada. Existem de facto inimigos da nossa versão de democracia ocidental, e a independência energética é não só uma necessidade estratégica, mas também um imperativo da nossa afirmação global. Estamos provavelmente perante o melhor argumento das últimas décadas para o investimento nas energias renováveis.

Finalmente, temos de condenar diretamente o relativismo moral daqueles que não conseguem criticar os russos, justificando as suas ações com a pressão ou ações passadas da NATO e do Ocidente. Se temos responsabilidade partilhada pela situação, ou se foram muitas as guerras injustificadas que a NATO despoletou? Talvez. Mas não devemos inventar que nesta guerra existe algo mais de substancial do que um agressor e um agredido, ou que violência no Médio Oriente perdoa nova violência no Leste Europeu.

Que podemos então fazer para ajudar os bravos ucranianos que sofrem perante a violência injustificável, sem que isso implique uma intervenção que daria ao conflito uma escala inimaginável? Aprender com os erros do passado e preparar os conflitos do futuro, percebendo e assumindo que a democracia não é inevitável, que existem monstros neste mundo e que não podemos lembrar-nos deles apenas quando nos batem à porta. Seja esta a consequência final do amor russo e não a destruição de povo e de uma pátria.

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