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Mercearias de Diplomados

André Teixeira
Opinião \ sexta-feira, agosto 26, 2022
© Direitos reservados
Não devemos querer uma universidade de métricas puras, de melhores alunos brilhando na sua singularidade, de excelentes avaliações, mas uma que cumpre a função de edificação social, aberta a todos.

Com o final deste semestre chega também o fim da minha jornada na Universidade do Minho, pelo que não poderia evitar realizar uma breve reflexão sobre o propósito e estado do Ensino Superior em Portugal. Neste tipo de reflexão importa responder a uma pergunta simples, mas fulcral: o que é, afinal, uma Academia? Uma fábrica de produção de licenciados, prontos a integrarem as hostes de trabalhadores na esquálida máquina do capitalismo moderno? Um filtro de capacidades e recursos que esclarece quem deverá ter a possibilidade de aceder aos escalões mais altos da sociedade, de viver bem e de determinar o destino dos restantes? Um negócio, como outro qualquer, onde é oferecido um serviço e recebido por ele uma contrapartida, qual mercearia de diplomados?

Eu diria que a Universidade, nos seus momentos mais altos, foi o que foi porque se recusou a estes reducionismos hipermercantilistas e classistas, e que nos seus momentos mais baixos foi o que foi porque se entregou ao desejo de reprodutibilidade económica meramente instrumental. À academia compete o papel de criar, transmitir e edificar conhecimento, bem para lá do mínimo necessário para montar proletários especializados.

A Universidade não serve para encontrar os melhores, mas para combater ativamente as desigualdades da sociedade através da injeção bruta de investimento social, cultural, científico, artístico, político e económico na população. Não devemos querer uma Universidade de métricas puras, de melhores alunos brilhando na sua singularidade, de excelentes avaliações, mas uma que cumpre a sua função de edificação social, aberta a todos. Se a educação é sobre redução de desigualdades e não sobre falsas promessas de elevadores sociais apenas acessíveis aos mais afortunados, então deveremos investir decisivamente nas universidades, protegendo-as dos interesses meramente empresariais e da alienação económica que por vezes sofrem.

Porém, não estamos a cumprir com este desígnio. Temos um Ensino Superior territorialmente desigual, repleto de taxas e propinas, sem capacidade de alojar as suas comunidades, cobrando centenas de euros por papéis e usando estudantes, especialmente internacionais, para colmatar as suas falhas de pessoal e financiamento. Ninguém nega que a educação é essencial para o futuro dos jovens e do país, mas a cegueira e egoísmo que por vezes encontramos na recusa em “pagar pelos estudos dos filhos dos outros” dificilmente se coadunam com a necessidade de financiamento público com que nos deparamos.

O que está em causa no investimento na educação não é nem nunca foi uma hierarquização de prioridades económicas. O que está em causa é o valor ético e moral que damos à educação como princípio e não como ferramenta ou bem de mercado, como aliás tende a acontecer nas discussões sobre economia social, erroneamente pensadas como matemáticas e não políticas. Se a educação apresenta valor civilizacional em si própria, sendo um pilar essencial da democracia e do progresso, e se o Ensino Superior é a virtualização maior desse valor, então há que assumir a necessidade de o catapultar para a parte de cima das nossas preocupações.

Sim, todos devemos pagar pela educação das novas gerações, independentemente de terem boas ou más notas, de nascerem no litoral ou no interior, de parecerem promissoras ou não. Precisamos de rever urgentemente os diplomas legais que o regem, nomeadamente o método como o financiamos e como o organizamos, assegurando mais democracia nas nossas academias, mais responsabilização e mais ativismo académico. Evitemos a transformação dos nossos alunos em autómatos especializados em fazer uma única tarefa, e procuremos antes criar cidadãos. Apenas assim poderão as Universidades, incluindo a minha, cumprir a sua honrosa missão.

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