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Insistência em Maltratar

André Teixeira
Opinião \ segunda-feira, abril 24, 2023
© Direitos reservados
A TAP tornou-se o principal imbróglio da família socialista, ao ponto de poder definir o seu futuro próximo.

Correndo o risco de alienar todos aqueles que se encontram legitimamente fatigados do assunto, procurarei abordar aqui a questão da TAP. Não porque tenha algum comentário inovador a adicionar, mas porque as conclusões que temos necessariamente de tirar não podem ser adulteradas. Mais do que uma companhia difícil ou um caso de indigestão política, a TAP tornou-se o principal imbróglio da família socialista, ao ponto de poder definir o seu futuro próximo. O enquadramento implica que o interesse efetivo pela saúde da TAP enquanto empresa é muito baixo, quer para o Governo quer para a Oposição, relegado para segundo plano pelas ilações políticas que daqui se podem tirar.

A interferência e instrumentalização políticas que a TAP sofreu, sofre e sofrerá envergonham-nos a todos e ameaçam o futuro de uma das mais importantes empresas nacionais, assim como a confiança do público na elite política e na democracia. Desde o controlo direto exercido sobre os seus gestores, até à divisão entre ministérios da sua tutela, passando ainda pelas comissões de inquérito para lavagem de roupa suja, nenhuma condição foi criada para que a companhia pudesse ter sucesso. É importante perceber que as dificuldades enfrentadas pela TAP não vêm de agora. A ruinosa privatização da TAP, realizada na 25ª hora do governo passista, fruto de uma cruzada da Direita contra a mera ideia de gestão pública, foi a origem de muitos dos atuais dramas da empresa. Tudo aí foi mal gerido, tendo o Estado ficado com o ónus de assumir os prejuízos e deixando os frutos de eventuais sucessos a investidores privados, na boa tradição dos resgates bancários pré-crise de 2008. Atravessada uma pandemia debilitante e um processo de nacionalização caótico, seria surpreendente que a companhia conseguisse vingar no mercado atual. Atenção, não estou aqui a procurar desculpar o PS da sua responsabilidade na questão. Muito pelo contrário. A forma como o Governo tratou a TAP, como se do seu quintal se tratasse, dispondo dela para satisfação das suas necessidades políticas imediatas, foi um colossal falhanço político, que em muito afetará o futuro da democracia em Portugal. Mas desenganem-se aqueles que consideram que este desastroso exemplo de gestão pública é uma prova viva de que a privatização é a solução para tudo. Não o é e nunca o foi, tal como aliás verificado pelos recentes resultados positivos da TAP, obtidos num momento de tamanha instabilidade que merecem aplauso, não descrédito. A gestão pública de empresas deve servir para tutelar áreas de interesse geral e assegurar um serviço aos cidadãos que opere fora dos constrangimentos de um foco no lucro. Nada neste caso implica o falhanço da ideia de gestão pública, mas antes a baixa qualidade dos nossos decisores atuais. Chocante, portanto, não são os valores pagos como salários ou indemnizações, que apesar de obscenos não são incomuns para quem tem por hábito estar atento, mas antes a displicência com que o interesse público é tratado e a notável ausência do sentido de dever cívico, de um lado ao outro do plenário. Chocante é a falta de qualidade da classe política e o ambiente de mediocridade que toleramos com a nossa inatividade, e por vezes mesmo calculismo, até algo como a TAP rebentar nos jornais.

Dizia recentemente Santana Lopes que caso fosse ele o Primeiro-ministro, o Presidente da República teria já dissolvido o Parlamento. Não está errado. Mas Costa não é Santana, por muito desgaste político que este caso lhe tenha custado. Sem opções de Direita que não impliquem cedências a neofascistas, a solução para a renovação da confiança terá de passar pela reforma das Esquerdas, presas numa infeliz espiral descendente. Neste mês da Liberdade, ousemos ter uma visão para o futuro do país para lá da mera manutenção de mínimos. E talvez assim ainda seja possível salvar a crença dos cidadãos nesta nossa amada democracia que insistimos em maltratar.

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