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Panaceias Partidárias

André Teixeira
Opinião \ domingo, julho 16, 2023
© Direitos reservados
Apenas através de um insubmisso foco na discussão aberta dos terríveis e apaixonantes desafios que enfrentamos poderemos resgatar a crença da população na democracia

Partidos são entidades essenciais no nosso sistema democrático. Mais do que meras plataformas de mobilização eleitoral ou organizações de distribuição de poder, os partidos são centros da atividade política, onde aqueles que partilham de um conjunto de ideais, mesmo que difusos, se podem juntar para discutir ideias, descobrir como participar e transformar os seus pensamentos em ação pública.

Existem muitas formas de intervenção cidadã, mas não nos deixemos enganar pela desilusão que possamos sentir: sem partidos não existe democracia representativa. É, porém, inegável a atual crise das estruturas partidárias, cuja merecida reputação de toxicidade afasta aqueles que deveriam atrair, fruto da acumulação de oportunismos e do alheamento da missão de serviço público. Um partido que existe apenas para se servir a si mesmo, incapaz de equilibrar o caudilhismo e cinismo com o idealismo e ingenuidade, é um organismo fechado que gere a atribuição de mandatos e pouco mais.

A tentação para tal está sempre presente, qual demanda bíblica ou tolkieniana, devendo, portanto, ser ativamente combatida. Foi com essa missão em mente que o PS de Guimarães estabeleceu a sua Conferência Permanente de Política Democrática, consciente da vulnerabilidade e acrescida responsabilidade que advém da sua posição no nosso concelho. O desenvolvimento de um programa de debate transversal, aberto a todos os cidadãos e trazendo à Cidade Berço inúmeras personalidades de destaque na política nacional, é essencial para a constante construção de um partido melhor. É impossível desenvolver qualquer material ideológico sem esforço ativo nesse sentido, particularmente num contexto constantemente afligido por pressões mediáticas, e é impossível criar propostas para o futuro sem um fio condutor ideológico adequadamente afinado.

Esta iniciativa apresenta-se novamente como um paradigma da atividade política local no presente mês de julho, com as Conferências Mário Soares, onde três questões particularmente relevantes e atuais são colocadas em debate. Em primeiro lugar, o papel futuro da União Europeia na defesa da democracia, num mundo onde esta se encontra ameaçada por forças internas e externas. Em segundo lugar, a natureza do neoliberalismo enquanto corrente de pensamento, com o seu impacto permanente na nossa cognição social. Em terceiro lugar, o papel da comunicação aberta e democrática na destruição do exato sistema que permite a sua existência.

Questões da maior importância, que devem ocupar o cerne do ideário partidário. Correndo o risco de soar ingénuo ou mentiroso, acredito que apenas através de um insubmisso foco na discussão aberta dos terríveis e apaixonantes desafios que enfrentamos poderemos resgatar a crença da população na democracia. Não sendo conferências ou debates as panaceias que nos irão curar da apatia, desconfiança ou desonestidade dos nossos concidadãos, estas apresentam-se como ferramentas úteis e relativamente simples de utilizar, devendo ser prerrogativa dos partidos políticos a mobilização das populações para a participação cívica, mesmo que sem ficha de militante ou ato eleitoral no horizonte.

Dizia Almada Negreiros: “Quando eu nasci, as frases que vão salvar a Humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a Humanidade.” O défice democrático que atualmente experienciamos tem causas conhecidas e remédios recomendáveis, sendo urgente colocar em prática ações que combatam as causas dos nossos flagelos em vez de apenas tratar os seus sintomas. Os nossos sistemas e soluções atuais não são inevitáveis ou impostos pelo mítico ou divino, mas antes escolhas políticas inevitavelmente imperfeitas tomadas por pessoas reais e palpáveis.

Apesar da crise política e moral das nossas estruturas partidárias, iniciativas como esta permitem-nos ter alguma esperança na construção de um futuro melhor e mais saudável. Não muita, claro. Esse é um luxo a que não nos podemos dar nestes tempos conturbados. Mas qualquer mudança não violenta é lenta, sendo cada esforço necessário, apesar de não suficiente. E talvez através deste esforço, gota a gota, debate a debate, ainda seja possível salvar alguma coisa.

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