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24 de Junho - Dia Um de Portugal

Álvaro Manuel Nunes
Opinião \ sábado, junho 11, 2022
© Direitos reservados
Somente a partir de 1974 o 24 de Junho passou a feriado municipal. Entre 1913 e 1951, o burgo vimaranense celebrava o seu feriado municipal a 8 de Junho, em honra e memória de Mestre Gil Vicente.

O 24 de Junho de 1128 assinala a Batalha de S. Mamede, considerado o DIA UM DE PORTUGAL ou “A Primeira Tarde Portuguesa”, na perspetiva do historiador José Mattoso.

Um dia recordado na nossa História para todo o sempre, que se encontra também evocado numa pintura mural no edifício da Assembleia da República, em Lisboa, de autoria do artista Acácio Lino, datada de 1922 e cantado na obra “Os Lusíadas” de Luís de Camões, na estrofe 31 do canto III:

 

“De Guimarães o campo se tingia

Co sangue próprio de intestina guerra,

Onde a mãe, que tão pouco o parecia

Ao seu filho negava amor e terra.

Co ela posta em campo já se via,

E não vê o soberano o mito que erra

Contra Deus, contra o maternal amor,

Mas nela o sensual era maior”.

 

Ora o 24 de Junho é feriado municipal no concelho de Guimarães desde 1974, embora em 1928 já tivessem ocorrido na cidade celebrações desse dia. Uma data importante na fundação da nacionalidade, que marca a vitória de D. Afonso Henriques e dos barões portucalenses contra as tropas do conde galego Fernão Peres de Trava, que se tentava apoderar do governo do Condado Portucalense, com a conivência de Dona Teresa, mãe de D. Afonso Henriques.

Uma data que também é recordada na placa evocativa colocada no Campo da Ataca, na freguesia de Aldão, no vale de S. Torcato: “Neste terreno – sugestivamente chamado pela população “Campo da Ataca”- , teve lugar, segundo a tradição, o início da Batalha de S. Mamede, de que saiu vitorioso D. Afonso Henriques, nosso primeiro rei, em 24 de junho de 1128. Esta data é considerada, por muitos historiadores, como “O Dia 1 de Portugal”.

Com efeito, este é também o sentido de Alexandre Herculano, que no capítulo I da obra “O Bobo”, escreve: “Se na batalha do Campo de S. Mamede, em que D. Afonso Henriques arrancou definitivamente o poder das mãos de sua mãe, ou antes do conde Trava, a sorte das armas lhe houvera sido adversa, constituiríamos provavelmente hoje uma província de Espanha”-

 

No entanto, alguns outros historiadores apontam diferentes datas significativas para a afirmação da nacionalidade:

- 25 de julho de 1139, data da Batalha de Ourique, na sequência da qual D. Afonso Henriques se proclamou rei de Portugal;

- 5 de outubro de 1143, data da assinatura do Tratado de Zamora, pelo qual Afonso VII , rei de Leão e Castela, reconhece a independência de Portugal;

- 23 de maio de 1179, data da bula papal “Manifestis Probatum”, de Alexandre III, que reconheceria Portugal como país independente.

Porém, com o devido respeito pelas diferentes perspetivas históricas, de facto, como consta no pano da muralha da Torre da Alfândega, “aqui nasceu Portugal” a 24 de Junho, ainda que outras ocorrências da vida deste país tenham concorrido para o seu crescimento autónomo.

Acrescente-se por exemplo a importância do Cerco de Guimarães, no outono de 1127, que o citado historiador José Mattoso na sua obra “D. Afonso Henriques” referencia:

 

“O episódio do cerco de Guimarães tem um significado muito importante. Em primeiro lugar porque representa a primeira confrontação dos nobres de Entre Douro e Minho com o rei de Castela (..) Em segundo lugar significa que, a partir dali, o infante passou a desempenhar um papel preponderante na evolução dos acontecimentos do condado. Em terceiro lugar, verifica-se que o problema da relação política do condado com o rei de Leão ficava, na prática, suspenso, pelo facto de a submissão vassálica ter sido prestada por quem não tinha autoridade para o fazer (Egas Moniz), mas a sua aceitação nestas condições significa também que Afonso VII se contentou com uma solução que salva a honra das partes, mas não resolvia o problema de fundo”.

 

Curiosamente, uma ocorrência histórica que é também narrado na estrofe 35 do canto III, da obra “Os Lusíadas”, de Luís de Camões:

Não passa muito tempo, quando o forte

Príncipe em Guimarães está cercado

De infinito poder, que desta sorte

Foi refazer-se o inimigo magoado.

Mas, com se oferecer à dura morte

O fiel Egas amo, foi livrado,

Que de outra arte, pudera ser perdido

Segundo estava mal apercebido”.

 

No fundo, acontecimentos reais que marcaram a História deste país, que conjuntamente com outros eventualmente lendários marcam o nosso início.

De facto, entre as várias lendas da fundação, consta que Egas Moniz ter-se-á apresentado com a família perante o rei Afonso VII, com uma corda à volta do pescoço, para que o monarca pudesse fazer justiça face à impossibilidade de não manter a sua palavra de vassalagem. Uma atitude que mostraria valor da lealdade e honra lusitana. Porém, segundo alguns, este episódio será apenas lendário, decorrente da obra “Gesta de Egas Moniz”, do trovador da corte de D. Afonso III, de nome João Soares Coelho.

Factos, lendas e recriações cruzam-se assim nos nossos inícios, que o 24 de Junho celebra como o DIA UM DE PORTUGAL:

 

Neste Dia Um de Portugal

24 de Junho, de heroicidade,

Em 1128 embalou-se sem igual

O berço da nacionalidade.

 

A Primeira Tarde Portuguesa~

Por Acácio Lino pintada

Em mural de força e beleza

No Parlamento é recordada

 

Contra a mãe e o conde galego

Fernão Peres de Trava chamado

  1. Afonso Henriques com apego

Travou a luta pelo seu Condado.

Em S. Mamede conquistada

 Assinada em Ourique e Zamora

Na Manifestis Probatum selada,

Portugal soube nascer na hora …

 

Mas nem sempre esta ocorrência histórica foi a data mais assinalada em Guimarães. Com efeito, somente a partir de 1974 é que o 24 de Junho passou a feriado municipal. Realmente e anteriormente, entre 1913 e 1951, o burgo vimaranense celebrava o seu feriado municipal a 8 de Junho em honra e memória de Mestre Gil Vicente. De facto, por proposta de 15 de janeiro de 1913 de Mariano Felgueiras, aprovada pela Câmara Municipal, propunha-se:

 

“Considerando que a cidade de Guimarães justamente se orgulha de ser a terra onde nasceu Gil Vicente, o insigne poeta dos Autos;

Considerando que foi em 8 de Junho de 1502 que Gil Vicente recitou, pela vez primeira, o Monólogo de um Vaqueiro, fundando assim o teatro português;

Considerando que tal acontecimento, devendo ser condignamente comemorado em todo o país, muito mais o deve ser no concelho de Guimarães, por ter sido um vimaranense o glorioso iniciador do Teatro Nacional;

Considerando que as Câmaras Municipais podem, pelo decreto-lei de 12 de outubro de 1910, considerar feriado um dia por ano;

Considerando que neste concelho não há dia de festa tradicional e característica do município que mereça ser considerado feriado;

Proponho que a Municipalidade de Guimarães considere feriado, dentro da área do concelho, o dia 8 de Junho de cada ano, por nesse dia passar o aniversário da fundação do teatro português pelo vimaranense Gil Vicente.

Mais proponho que, sendo aprovada esta proposta, se publique por meio de editais para conhecimento de todos os interessados”.

 

Uma data que evocaria o 8 de Junho de 1502, o dia em que Gil Vicente apresentou a D, Leonor viúva de D. João II, o Monólogo do Vaqueiro ou Auto da Visitação, escrito para comemorar o nascimento do príncipe João: o futuro rei D. João III.

O mês de Junho está, por conseguinte, indelevelmente marcado por duas datas relevantes e queridas da cidade vimaranense. Mas é também o mês de Camões, cuja obra prima “Os Lusíadas” perfazem 450 anos de publicação.

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