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Luís de Camões e Guimarães

Álvaro Manuel Nunes
Opinião \ sexta-feira, junho 11, 2021
© Direitos reservados
Em 2020 passaram 440 anos da morte de Luís Vaz de Camões, falecido a 10 de Junho de 1580, atual feriado nacional consagrado como o Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas.

Ora, em Guimarães, tempos houve em que Camões era evocado com toda a pompa e circunstância. Assim aconteceu em 10 de Junho de 1880, aquando do tricentenário do seu nascimento, como consta no registo das “Efemérides vimaranenses” de João Lopes de Faria:

“A Comissão criada para celebrar o tricentenário de Camões principiou as suas solenidades neste dia por uma missa rezada na Colegiada, em que foi celebrante o Padre António José

Pereira Caldas Júnior, pelas 11 horas da manhã (…)

Terminada a missa, a comissão dos festejos, acompanhada por todas as corporações, dirigiu-se à Casa da Câmara e estando aí reunidos em sessão solene os vereadores, foi-lhes apresentado e lido pelo Conde de Margaride uma mensagem, na qual a mesma comissão oferecia ao município dos exemplares duma tradução de alguns cantos dos Lusíada em francês pelo duque de Palmela e revista por madame Stael; edição que a mesma comissão mandará fazer para distribuir neste dia em honra do grande épico. Fez-se dela uma tiragem de 200 exemplares e 12 desses de luxo, sendo aqueles numerados e distribuído pelos assinantes e oferecidos exemplares ao rei D. Fernando, ao imperador do Brasil, à Câmara e ao Dr. Pereira Caldas (…)

Na mesma mensagem se pedia à Câmara que um dos largos ou ruas de Guimarães fosse batizada com o nome de Camões e que se resolveu logo por unanimidade, sendo por isso escolhida a antiga Rua Nova das Oliveiras. Em seguida, por proposta do vereador António Joaquim de Mello, também se resolveu que ao Largo do Pelourinho se pusesse o nome Largo do Trovador, em comemoração do primeiro trovador português Manuel Gonçalves, nascido no antigo burgo, na Rua de Couros.

Terminada a sessão à meia hora da tarde, saiu uma banda real, convidando os habitantes a iluminarem as suas casas (…)

 No entanto, o relato de João Lopes de Faria daria ainda conta de um jantar concedido aos presos, toques de sinos a repique e o cancelamento da iluminação no Toural, por causa da chuva. Porém, nessa noite de 11 de Junho, reporta-se também o espetáculo de gala ocorrido:

“Na noite de 11 de Junho e com a continuação dos festejos houve no teatro espetáculo de gala, representando-se pela primeira vez o original do nosso cónego Dr. António d’Oliveira Cardoso “Lágrimas e Risos”, em 3 atos. Nos intervalos recitaram-se algumas poesias, produções literárias de vimaranenses, entre os quais se distinguiu o Dr. Pereira Caldas (…)

O teatro achava-se elegantemente adornado com ramagens e coroas de carvalho e louro e bandeiras. No camarote central de segunda ordem estava o busto de Camões, em gesso, entre cortinados azuis e brancos, lendo-se em escudetes postos sobre as colunatas de cada camarote datas mais notórias da vida de Camões e na primeira ordem em idêntico lugar os nomes de14 poetas e literatos notáveis vimaranenses (…)

O saldo deste espetáculo, deduzidas as despesas, que foram grands,, reverteu em benefício das  obras da Penha, que por esse motivo iluminaram nessa noite o cimo dos penedos e deu uma salva de morteiros”.

 

O texto dá ainda conta de um acidente ocorrido devido ao fogo, bem como da constituição da comissão dos festejos, aos quais se agregaram os condes de Margarida e de Vila Pouca, bem como o barão de Pombeiro e Francisco Sarmento, notáveis da época,

De facto, Guimarães nunca esqueceu o genial poeta, que se encontra consagrado na toponímica da cidade: a rua de Camões, que liga o Toural às Dominicas.

Aliás, muito recentemente, entre dezembro de 2017 e maio de 2018, “Os Lusíadas” seriam manuscritos em Guimarães por cerca de 450 “copistas”, dos 6 aos 95 anos, entre quais o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, que escreveria as três últimas estrofes.

 Uma excelente iniciativa, denominada “Dê 10 minutos à Língua Portuguesa”, à qual antigos professores da Secundária Martins Sarmento e o seu movimento “Voltar à Escola” deram arranque e que contou ainda com o apoio da Biblioteca Raul Brandão e da Sociedade Martins Sarmento. Uma edição manuscrita se e singular que atualmente se encontra à guarda da Sociedade Martins Sarmento, ao lado da primeira edição impressa, existente nesta instituição vimaranense.

Com efeito, como na altura sublinhou Paulo Vieira de Castro, presidente da Sociedade Martins Sarmento, uma ocorrência que seria uma ” exemplo e dinamismo de um grupo que mostra o que é ser professor”

Mas Guimarães está também imortalizado nos “Lusíadas”, em especial nas estrofes 31 e 35 do canto III, que transcrevemos:

 

“De Guimarães o campo se tingia

Co sangue próprio de intestina guerra,

Onde a mãe, que tão pouco o parecia

Ao seu filho negava amor e terra”.

Co ele posta em campo já se via,

E não vê a soberba o muito que erra

Contra Deus, contra o maternal amor,

Mas nele o sensual era maior.

 

Não passa muito tempo, quando o forte

Príncipe de Guimarães está cercado

De infinito poder, que desta sorte,

Foi refazer-se o inimigo magoado.

Mas, como se oferecer à dura morte

O fiel Egas amo, foi livrado

Que, de outra arte, pudera ser perdido,

Segundo estava mal apercebido.”

 

Camões está de facto e para sempre, entre aqueles que “se vão da lei da Morte libertando” …

Cremos contudo, que Guimarães bem poderia assinalar estas referências intramuros, com colocação de placas de citações alusivas, em locais bem escolhidos. Não só Camões, obviamente, mas também muitos outros como Saramago, Torga, Ferreira de Castro, Raul Brandão, Camilo Castelo Branco, que nas suas obras citam Guimarães e que deveriam ser de conhecimento público.

Aqui fica o repto e o desafio …

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