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O centenário da travessia aérea do Atlântico Sul

Álvaro Manuel Nunes
Opinião \ sábado, fevereiro 12, 2022
© Direitos reservados
Ora, é esta proeza área e histórica, a nível da aviação internacional, aqui sumariada sinteticamente, que os vimaranenses recordam no Penedo dos Aviadores.

“Guimarães, aos Aviadores! A Gago Coutinho e Sacadura Cabral.1922.” é a inscrição que praticamente todos conhecemos gravada numa rocha granítica da Penha, no denominado Penedo dos Aviadores, situado no espaço compreendido entre o santuário e o hotel. De facto, uma escultura de autoria de José de Pina (1874-1960), na qual sobressai uma águia cujo bico aponta o Brasil e cujas garras agarram afincadamente a Cruz de Cristo cruzada pelo escudo português, simbolicamente como que ensaiando um voo com os pés bem assentes na terra.
Efetivamente, um que monumento assinala orgulhosamente uma façanha da aeronáutica nacional ocorrida em 1922, que este ano celebra o centenário da sua ocorrência: a travessia aérea do Atlântico Sul pelos aviadores portugueses Gago Coutinho (1869-1959)e Sacadura Cabral (1881-1924).

Com efeito, esta travessia aérea ocorreu em 1922 e juntou dois homens experientes, que se conheceriam nas antigas colónias portuguesas, em África e partilhavam entre si preocupações acerca da orientação e localização no alto-mar: Gago Coutinho, cartógrafo ao serviço da Marinha, navegador da viagem; e Sacadura Cabral, experto aviador e piloto da viagem.
Destarte, a bordo do hidroavião Lusitânia, ambos partiriam de Lisboa a 30 de Março de 1922, rumo à primeira escala em Las Palmas e daí à Ilha de S. Vicente, em Cabo Verde, onde teriam de proceder a algumas reparações. Porém, uma viagem atribulada, pois algumas dificuldades aconteceriam na etapa seguinte, nas ilhas brasileiras de S. Pedro e S. Paulo. Aqui por danificação do meio aéreo foram forçados a seguir por navio até à ilha brasileira de Fernando Noronha e a esperar por novo hidroavião, que seria enviado pelo governo português, mas que lamentavelmente acabaria também por ter uma avaria no motor. De facto, só o terceiro hidroavião, de nome “Pátria”, os dois aventureiros seriam capazes de patrioticamente concluir a odisseia, que, após escalas no Recife e outras cidades brasileiras atingiria o Rio de Janeiro a 17 de Junho, uns meses antes da independência do Brasil, em 7 de Setembro de 1822, que nesse ano de 1922 celebrava o primeiro centenário.
No entanto, não obstante os percalços, a travessia do Atlântico Sul foi um sucesso, provando ser possível percorrer longas distâncias sobre o oceano de forma rigorosa e precisa, utilizando-se apenas instrumentos portáteis de navegação astronómicos como o sextante e o corretor de rumos, invenção que permitia retificar os desvios causados pelos ventos.

Ora, é esta proeza área e histórica, a nível da aviação internacional, aqui sumariada sinteticamente, que os vimaranenses recordam no Penedo dos Aviadores.
Tudo começaria pela constituição da Comissão do Monumento aos Aviadores formada por João Gualdino Pereira, José Gilberto Pereira, A.L. Carvalho, José de Pina, Casimiro José Fernandes e Manuel Pereira Mendes, que logo seria seguida pela abertura de uma subscrição pública por parte da Câmara Municipal, para custear o monumento. Angariação de fundos que em 1925 levaria (ainda) à realização de um “atraente sarau”, no Teatro D. Afonso Henriques pela Associação dos Empregados do Comércio e pela Comissão defensora da Capela-Mor de Santa Clara. Um sarau que seria constituído por uma conferência, proferida pelo poeta vimaranense Jerónimo de Almeida (1886-1975) e a representação da comédia “Os Velhos” de D. João da Câmara.
Quanto ao Penedo dos Aviadores seria inaugurado, em 12 de Junho de1927, no acto de conclusão do Congresso Eucarístico Nacional de Guimarães, com Peregrinação à Penha. Na circunstância, A.L. Carvalho explicaria o monumento, a Banda de Música dos Bombeiros Voluntários de Guimarães tocaria sons festivos, sendo ainda assinado um “auto de inauguração”, por todos os prelados presentes.

Entretanto, no que concerne ao autor José Luís de Pina prometemos brevemente detalhar sua vida e obra recheada amor à sua cidade. Diremos apenas, aqui e agora, que nasceu na Rua Paio Galvão, e foi professor de desenho do Liceu de Guimarães, no qual exerceria ainda cargos de vice-reitor e reitor, na segunda década do século XX.
Porém, desempenharia ainda várias funções cívicas e sociais ao longo da sua vida. De facto, José de Pina participaria na Associação dos Bombeiros Voluntários de Guimarães, assumindo o seu comando, seria vereador da Câmara de Guimarães e Presidente da Comissão de Turismo, muito ligado aos melhoramentos e arqueologia da Penha, e ,como não bastasse, seria diretor da Sociedade Martins Sarmento e membro das direções da Santa Casa de Misericórdia e do Hospital de S. Domingos.
De relevante é ainda a sua ligação às Nicolinas e Gualterianas.Com efeito, fez parte da Comissão de Ressurgimento das Festas dos Estudantes de Guimarães e foi Juiz da Irmandade de S. Nicolau; e no âmbito das Festas da Cidade é considerado o “ideólogo da Marcha Gualteriana”, autor de vários carros alegóricos e idealizador dos bonecos articulados do desfile. Em súmula, esteve em tudo que em Guimarães" mexia "…
Várias vezes condecorado por várias entidades, seria ainda agraciado com a Medalha de Ouro da Cidade, atribuída em 1948 e homenageado pela urbe vimaranenses em 1954, conjuntamente com o padre Gaspar Roriz. Como tal está (ainda)memoriado na toponímia da cidade, numa artéria entre a Avenida D. João IV e EB 2,3 Egas Moniz e ainda num busto em bronze do escultor António de Azevedo, que foi descerrado na Penha em 1963.

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