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Vamos cantar as Janeiras

Álvaro Manuel Nunes
Opinião \ quinta-feira, janeiro 06, 2022
© Direitos reservados
Desde os tempos mais remotos que as tradições das Reisadas e Janeiras se assumem como tradições populares com raízes históricas, cantadas e glosadas desde o passado ao presente.

“Natal dos Simples” de Zeca Afonso é um desses cantares de ontem e de hoje, entoados por esses “quintais adentro” :

“Vamos cantar as Janeiras
Vamos cantar as Janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras”.

Vamos cantar as Janeiras
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas.”
(…)

Cantar as Janeiras e Reisadas é de facto uma tradição enraizada entre nós, que consiste em entoar pelas ruas músicas e cantares, anunciando o nascimento de Jesus Cristo e desejando um feliz ano novo por todas as casas de “candeia acesa”, pois como se canta:

Quem tem candeia acesa
Rabanadas, pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza.”
(…)

Um costume ancestral que se crê herdado das strenas romanas, em que se celebravam os deuses pagãos e eram pedidas ou oferecidas dádivas no início do ano. Igualmente, um ritual relacionado com o deus Jano ou Janua, que estará na origem da palavra (e mês de) janeiro, que significa porta, entrada.

As Janeiras são portanto tradições ligadas à quadra natalícia, apropriadas pela Igreja e pelo catolicismo, que conjuntamente com os Reis representam peditórios cantados, geralmente entre o Ano Novo e o Dia de Reis Magos (6 de janeiro). Tradições muito semelhantes, que ora têm como pretexto o ano novo (Janeiras), ora a invocação da visita dos três Reis Magos (Reis ou Reisadas).

De facto, a adoração dos reis é um tema de culto cultivado desde os tempos de antanho, como o comprovam os quadros de André Gonçalves (1685-1762),Domingos Sequeira (1768-1837), Grão Vasco (1745-1542), entre outros. Tema que seria também glosado na literatura como o documentam as duas obras do dramaturgo português António Prestes (“Auto do Procurador” e “Auto dos Dous Irmãos”), como este excerto se documenta:

“Primo se forem bem pagos
de terreiro aqui diremos
cantaremos, bailaremos
bem cantados uns Reis Magos.” 

O “Auto dos Reis Magos” de mestre Gil Vicente, concebido para a festa da Epifania, representado em 6 de Janeiro de 1503, é outro exemplo seiscentista deste ritual. Um auto religioso que teria sido escrito a pedido da rainha Dona Leonor, ao que consta em apenas 12 dias. Peça centrada na viagem dos pastores Gregório e Valério até Belém para visitar o Menino Jesus, que perdidos na jornada contariam com o apoio do Eremita, frei Alberto e um Cavaleiro Árabe, da escolta dos Reis Magos. Depois, os Reis chegam também e a representação termina com um vilancete cantando diante do presépio:

“Quando la Vírgen bendita
Lo parió
Todo el mundo la sentiá.
Los coros angelicales
Los três Reys la victoria
De almas humaneles.
En las tierras principales
Se soná
Quando nuestro Dios nació!”

Porém, ao que consta, um auto que teria parcialmente censurado pela Inquisição, que felizmente morreria em 31 de Março de 1821, há mais de 200 anos. Não só porque o Cavaleiro árabe era inconveniente, pois a situação política em Granada ainda era de conflito, mas também porque algumas questões colocadas pelos pastores sobre a sexualidade e o pecado original eram “inoportunas” para a época…

Porém, os Reis Magos são também um tema atual em muitos escritores e poetas dos nossos tempos. Basta recordar (e ler), entre outros, “Os três Reis do Oriente” de Sophia de Mello Breyner Andresen, “Os Reis Magos” de Vitorino Nemésio, ou o conto inserido no livro “O Cavalo de Pau do Manino Jesus” de Manuel António Pina, intitulado “Mais depressa, Reis Magos, mais depressa”.  Pressa que, contudo, não impediu os Reis Magos de chegarem cerca de 12 dias atrasados à adoração de Jesus, o que mereceria um ralhete da Virgem Maria:

“Nossa Senhora fitou-os com severidade: já estamos a 6 de janeiro, viestes atrasados.”

 Mas outras delícias, para além dos doces, podem também encontrar-se na poesia, para além destes contos de réis, que tempos atrás valiam mil escudos! Por exemplo, cito os “Reis Magos” de Olavo Bilac, o poema “Os três Reis” de Alice Vieira, ou Miguel Torga e José Jorge Letria, entre muitos outros. Mas especialmente a poesia popular sobre o tema:

“Ó nobre da casa, nobre gente
Escutai e ouvireis,
da parte do Oriente
são chegados os três Reis.

Esta casa está caiada
Do telhado até ao chão;
Os senhores que nela moram
Deus lhes dê salvação.

Quando eu aqui cheguei
Dei um tope num cortiço
Logo o coração me disse
Que me dariam um chouriço”. 

Realmente, uma tradição que nem sequer é exclusiva do país, uma vez que existem costumes semelhantes por toda a Europa, como os “cantores da estrela”. No entanto,  em Guimarães, a tradição mantém-se  viva, quer por parte de grupos associativos, instituições de solidariedade social, quer de jardins infantis e ATL que habitualmente cantam os Reis na Praça da Oliveira.

Este ano, se a pandemia permitir, OSMUSIKÉ cantarão os Reis no Paço dos Duques de Bragança, no dia 29 de janeiro, às 15 horas. Entre outras cantigas, esta “Lenda dos Três Reis Magos”, com letra de Maria Ribeiro e música de Óscar Ribeiro:

Por isso, caro leitor, não estranhe que em Janeiro lhe batam à porta, acompanhados por ferrinhos, zabumbas, pandeireta, bombos, flautas ou viola. Mas acima de tudo, prepare-se para a ceia e não ouse fazer birra e apagar dissimuladamente a candeia …

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