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José Luís de Pina

Álvaro Manuel Nunes
Opinião \ sábado, janeiro 13, 2024
© Direitos reservados
Neste mês, perpassam 150 anos do nascimento de José Luís de Pina. Arqueólogo, professor, artista e ativista dedicado às causas da sua cidade-berço, exerceu entre nós uma assinalável ação de cidadania.

Neste mês de Janeiro de 2024 perpassam 150 anos do nascimento de José Luís de Pina (JLP), filho de Luís de Pina e Eugénia Maria, ocorrido na Rua Paio de Galvão, freguesia de S. Paio, em 29 de Janeiro de 1874. Arqueólogo, professor, artista e ativista dedicado às causas da sua cidade-berço, JLP exerceu entre nós uma assinalável ação de cidadania, após a sua formação no Liceu de Guimarães, Escola Industrial Francisco de Holanda e Academia Politécnica do Porto.

De facto, além da sua carreira docente, exercida maioritariamente no Liceu de Guimarães, como professor de Desenho, que assumiria a partir de 1902, durante cerca de 40 anos, JLP seria ainda reitor deste estabelecimento de ensino entre os anos de 1910 a 1929 e, acima de tudo, um agente cívico e multifacetado,  em particular em prol das suas instituições e coletividades vimaranenses.

Com efeito, JLP esteve praticamente presente na generalidade das associações e instituições de Guimarães. Efetivamente, como arqueólogo, e enquanto membro da Direção da Sociedade Martins Sarmento, coordenou o Museu Arqueológico e os castros da Citânia de Briteiros e Sabroso, trabalhos de arqueologia que estendeu à Penha, onde também exerceria funções como membro da Comissão de Turismo e impulsionaria benfeitorias significativas.

Outrossim, JLP seria ainda 2º. Comandante dos Bombeiros Voluntários de Guimarães a partir de 1910 e posteriormente 1º. Comandante da corporação, que exerceria desde 1933 até à sua indigitação como Comandante Honorário, em 1948, data em que seria promovido a Inspetor da Corporação.

Efetivamente, bombeiro desde os 17 anos, seguindo as pisadas de seu pai, JLP pode dizer-se que, mal podia engatinhar – afirmaria José Pinto Rodrigues, no discurso de homenagem de 26 de Outubro de 1956 -,  os seus brinquedos “passaram a ser os bombeiros ou os desenhos em todos os papéis que encontrava à mão, quiçá também nas paredes. (…) Um homem bom, amorável, que se fazia obedecer pela persuasão e pelo exemplo. Ele é e ficará sempre como um símbolo perene de pulcra Abnegação!”

Ademais, como homem dos sete ofícios, JLP seria ainda vereador camarário, que no decurso do seu mandato encetaria uma persistente ação de luta em favor do restauro do castelo e do imóvel dos Paços dos Duques de Bragança.

Além disso, o artista vimaranense marcaria também presença ativa nas festas da urbe vimaranense. Realmente, como cidadão e artista ligar-se-ia às Gualterianas, sendo um dos seus membros fundadores e criador dos bonecos articulados da Marcha Gualterianas, bem como dos projetos de decoração e iluminação a implantar nas principais ruas e praças da cidade. Devem-se-lhe ainda alguns cartazes das Festas Gualterianas, como o de 1906 e outros, como o cartaz de 1923. Aliás, seria uma polémica em torno dos cartazes que o levariam a um curto autoafastamento das festas, especificamente devido ao cartaz polémico de 1916, criticado por “ser demasiado fúnebre, em lugar de ser uma coisa alegre e vistosa, como eram os cartazes anteriores de José Luís de Pina.”.

Na realidade, JLP era um nome intrinsecamente ligado às Gualterianas e sempre lembrado, mesmo quando as festas se reduziram apenas às  feiras afestadas, como aconteceu em 1918, devido à crise económica. O número especial do Jornal “Gualteriano” desse ano de 1918, é elucidativo da popularidade do artista: “(…) e temos saudades da garridice iluminária que o saber e o talento de Abel Cardoso e José de Pina imprimiam aos nosso olhos; dos descantes populares com a sua vivacidade, da batalha de flores (…)”

JLP aderiria ainda às Festas Nicolinas, às quais prestaria apoio artístico. Aliás, a 6 de Dezembro de 1942, aquando da sua aposentação, JLP seria alvo de homenagem num jantar alusivo, no qual seria declamado um segundo pregão, escrito por Delfim de Guimarães, recitado por Jerónimo Sampaio, denominado “Pregão da Saudade”, do qual respigamos a seguinte passagem:

 

Vai findar o Sampaio, agora, este Pregão

De reverência ao Pina, ao Mestre consagrado!

Deixai-o dar ao Mestre um xi do coração

Ardente, fraternal!- um xi muito apertado.  

 

Um xi de coração e agradecimento cultural que seria também recordado na peça em verso “O Sol da Nossa Terra”(1932), de autoria de Delfim de Guimarães, que seria representada pelos Caixeiros de Guimarães e seria dedicada “ao grande amigo da Penha e requintado artista José de Pina”.

Um tributo que Guimarães acrescentaria como preito, ao longo dos tempos, na atribuição do seu nome na toponímia da cidade (a Rua Comandante José Luís de Pina, que liga as artérias da Avenida D. João IV à Escola Básica 2,3 Egas Moniz), ou no busto em sua homenagem, erigido na Penha, em 1962, de autoria do escultor António de Azevedo. Uma escultura que, na circunstância, mereceria por parte de Carlos Saraiva, Presidente da Junta de Turismo, as seguintes palavras:

 

Terá, para além de tudo, a veneração de todos os vimaranenses. É neste ambiente de beleza, de religiosidade e poesia que ficará quem, lá em baixo se sacrificou a trabalhar pela Cidade e aqui, em cima, se devotou a moldar e acariciar a dureza dum monte para que ele fosse o seu prolongamento real e assim retratasse a verdadeira alma vimaranense”.

     

Reconhecimento, ainda demonstrado nas inúmeras distinções atribuídas. Destaquem-se, entre outras condecorações, a Medalha de Ouro da Cidade da Câmara Municipal de Guimarães, em 1948, concedida pelos altos serviços prestados à sua terra e a Medalha de Ouro da Liga dos Bombeiros Portugueses.

Com efeito, Mestre Pina, além do seu bairrismo e préstimos cívicos, bem como a criação dos bonecos da Marcha, deixar-nos-ia outras marcas artísticas na sua cidade. Recorde-se, por exemplo, o monumento denominado Penedo aos Aviadores, esculpido na Penha, que sob a inscrição “Guimarães, aos Aviadores! A Gago Coutinho e Sacadura Cabral. 1922”, gravada na rocha granítica da Penha,  se encontra situado no espaço compreendido entre o santuário e o hotel. De facto, uma escultura de autoria de JLP na qual sobressai uma águia cujo bico aponta o Brasil e cujas garras agarram afincadamente a Cruz de Cristo cruzada pelo escudo português, simbolicamente como que ensaiando um voo com os pés bem assentes na terra.

Efetivamente, um monumento que assinala orgulhosamente uma façanha da aeronáutica nacional ocorrida em 1922, concretamente a travessia aérea do Atlântico Sul, levada a cabo por Gago Coutinho (1869-1959) e Sacadura Cabral (1881-1924), cujo monumento evocativo seria inaugurado em 12 de Junho de 1927.

José Luís de Pina faleceria em 29 de Dezembro de 1960. Na altura, "0 Comércio de Guimarães", datado de 6 de Janeiro de 1961,  escreveria:" Não se desvaneceu ainda, nem esquecerá jamais, a triste notícia que na quinta-feira da passada semana, circulou na cidade e ultrapassou barreiras.

Tinha falecido um Homem que dedicou toda a sua Vida a servir a sua Terra .(…)

Quando lhe parecia que podia ser útil a alguém, aparecia sempre, aparecia sempre colocando-se na primeira fila, tendo sempre em vista servir, sem receber outra recompensa que não fosse o dever cumprido. (…)

Pode afoitamente dizer-se que morreu sem deixar um inimigo, o que é raríssimo em nossos dias."  

Em súmula, como escreveria o citado José Pinto Rodrigues,  um Homem de diamantino coração e um artista magnífico e um Mestre respeitado  "cujos métodos de ensino não seriam pedagógicos (…) mas eram eficazes, de resultados por vezes surpreendentes que revestiam aspetos miraculosos." 

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