Crónicas dos dias que passam
Passaram mais 365 dias no calendário gregoriano, pelo que se tudo correr bem (quero dizer, se tudo correr como soía), outros tantos se projetam nas calendas.
Ora 2025 não foi propriamente um Bom Ano Novo, como almejamos nas passas dos desejos, no final de 2024! As guerras, o genocídio e a fome continuam e insistem em prolongar-se sob a égide de operações especiais por parte dos blocos do costume, alicerçadas em putinismos e trumpismos de vária índole, ironicamente, na corrida ao Nobel da Paz. Maratonas imperialistas, sob o olhar paciente, expectante e inteligente da China, que com olhos em Taiwan e na hegemonia económica vai levando a água ao seu moinho.
Efetivamente, perante a nova (des)ordem internacional e a (in)sanidade mundial, que aponta cada vez mais para o (sub)solo das terras raras, as Rivieras do Médio Oriente, o petróleo, o ódio e a xenofobia, ou as novas escravaturas encapotadas, em detrimento do humanismo laico ou cristão, o mundo pula e avança sem a mão duma criança. Com efeito, um ano que em saldo se confinou pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos, a condenação de Jair Bolsonaro versus a inocentação dos invasores do Congresso norte-americano, o roubo no Louvre e as alterações climáticas que continuam a causar desastres, mas que teimam a não sair do papel das cimeiras.
Sinais dos tempos, são também o crescente avanço do descontentamento e o crescimento de movimentos de protesto de cariz extremista, tantas vezes sem soluções alternativas de foro democrático. Medidas que, em certa medida, nos fazem recordar o desfecho da I República, que cerca de100 anos atrás claudicou em 28 de maio de 1926, e que foi o que se viu durante 50 anos, ainda que por vezes a memória seja curta, ou deturpada pelos algoritmos propagandistas.
De facto, a memória e a História, não são conquistas cerebrais em muitas mentes, livres de Alzheimer. Basta andar nos autocarros e ouvir o que se diz .... Realmente, tal como na antiga Roma, pão e circo é o que está a dar! E o que realmente importa são umas fotografias nos lugares certos, com demagogia e populismo à mistura. Uma espécie de OPA’s circunstanciais e oportunistas, que pretendem vender gato por lebre, entre promessas e quejandos, como o salário mínimo de 1600 euros no dia de S. Nunca mais tarde, ou se Deus quiser! Compromissos que geralmente estão a ser criados na formação de condições objetivas e planos para ... que tardam, ou nascem em ambulâncias! Medidas que recentemente, como em concreto ocorreu nas propostas sobre as urgências regionais, listas de espera e médicos tarefeiros, matutradas sobre o joelho, serão devolvidos pelo Presidente da República sem promulgação.
Aliás, não serão as panaceias que trarão a habitação que faz falta (não só novos fogos como também a recuperação de muitos dos 700 mil vagos), nem o controlo do custo de vida que se carece, a despeito dos aumentos de salários e pensões comumente devorados na lida do quotidiano. Na realidade, não serão os lenitivos na saúde, ou o combate a outras mazelas como o acesso às creches e lares de idosos que constituirão a resposta à realidade, pois somente um amplo plano de vacinação em prol do que faz falta garantirá proteção devida.
De facto, o poder e os partidos, não têm aprendido com o tempo, o que tem levado ao desencanto popular e subsequentemente a alternativas de protesto, geralmente sem soluções positivas. Com efeito, na generalidade, as forças partidárias apenas s comprazem em eficácia política no revezamento e na endogamia, como autênticos Centros de Emprego para” boys and girls” e outros puxa-sacos, sem a devida avaliação devida do trabalho anterior, em especial quando estão causa serviços meramente técnicos e não propriamente cargos políticos. Aliás, assim acontece, salvo raras exceções de circunstância em várias autarquias e no SNS com os resultados à vista de todos, onde os aprendizes de feiticeiros avançam e cobram a fatura dos serviços eleitorais. Pior do que isso, a doença da partidarite aguda continua a não perceber que são precisos pactos e consensos a médio e longo prazo e é necessário acabar com a sistemática desculpa do passa culpas.
Efetivamente, em 2025, o país mergulhou ainda na instabilidade e foi também alvo de vários atos eleitorais, como as eleições regionais na Madeira, as eleições legislativas antecipadas em Maio, às quais acresceram as autárquicas em Outubro e ainda no Benfica, de moldes a bater um recorde mundial de participação eleitoral. Eleições legislativas que conduziram ao apagão do Partido Socialista e à consequente travessia do deserto, bem como ao tripartidarismo político, com a ascensão do Chega a 60 deputados e cerca de 1,4 milhões de votos, que muitos entendem ser em votos circunstanciais de protesto, ainda que similares à fábula de meter o lobo no galinheiro.
Mas esqueçamos momentaneamente 2025 das leis da emigração e nacionalidade, com algumas normas anti-constitucionais, desprezemos o escuro apagão de Abril (logo haveria de ser em Abril!) que mostrou as fragilidades do sistema elétrico nacional e a falta de comunicação atempada do poder, que pôs o país à luz das velas e lanternas, assim como levou o povão correr desenfreadamente para os supermercados, no açambarcamento do papel higiénico; lancemos também para o rio Letes o ano negro da gestão dos incêndios que devoraram 270 mil hectares e vários anos de vida e trabalho das povoações interiores; omitamos também a tragédia do elevador da Glória, em Lisboa, a condução desastrosa da Lei Laboral com a consequente greve geral que juntou as confederações sindicais, coisa que não se via há 12 anos! Esqueçamos ainda a crónica doença do Serviço Nacional de Saúde, a enormidade de alunos que continuam sem aulas, o drama da habitação e o Plano de Recuperação de Resiliência que poderá não ser cumprido na totalidade, por ironia do fado lusitano no ano em que perpassam 40 anos de adesão à CEE.
Porém, 2026, já entrado pé ante pé, perdoem-me o pessimismo, vai manter algumas das maleitas do ano findo e irreversivelmente vai trazer às costas todos os problemas que têm estado presos por um fio, eventualmente agravados pelos fantasmas da instabilidade mundial, que o início do ano indicia na Venezuela.
Com efeito, a nível interno, não há Cristiano Ronaldo que nestas circunstâncias marque golos! Mais plausível, por certo, seria o exemplo de Gonçalo Ramires, personagem da obra queirosina “A Ilustre Casa de Ramires”, que Marcelo evocou no discurso de Ano Novo. Curiosamente a evocação dum escritor que nunca se inibiu de criticar o atraso do país. Mas que o diabo seja surdo e mudo perante o negativismo e esta terra, como Anteu, recupere forças no seu próprio chão.
Porém, o turismo (com o recente caos no aeroporto da capital) e o excedente herdado podem não chegar para equilibrar as contas , uma vez que, segundo os peritos económicos, os tempos inclinam-se para o incumprimento regras orçamentais da Comissão Europeia e obviamente por arrastamento para um governo com mãos de ferro (que alguns desejam), que poderá acarretar mais cortes nas despesas, geralmente as sociais, como nas disfarçadas “poupanças” hospitalares, ou até empolar o crescimento da despesa, uma vez que os custos na defesa estão na berlinda.
Quanto a 2026, abrirá com mais um ato eleitoral, concretamente as presidenciais, que vão eleger o sexto presidente após 25 de Abril de 1974, sucedendo a Ramalho Eanes, Mário Soares (a vitória mais expressiva 70.35% de votos), Jorge Sampaio, Cavaco e Silva (o triunfo mais escasso com 50,4% de votos) e Marcelo Rebelo de Sousa. Do meu ponto de vista, uma escolha de sucessão que passa claramente por dois candidatos mais bem preparados: Marques Mendes e António José Seguro, um dos quais certamente presentes na 2ª. volta, a 8 de Fevereiro.
Obviamente e claramente, uma eleição que não só passa por opções entre questões de foro ideológico e escolhas que remetem para o equilíbrio de poderes, como também para o perfil dos candidatos, designadamente no que respeita à maior ou menor independência de ambos face aos interesses, negócios, influências e afins.
Porém, um ano de interrogações e dúvidas, quer quanto a uma eventual revisão Constitucional, à indigitação de novos magistrados para o Tribunal Constitucional, à plausível reeleição de António Costa para a presidência do Conselho Europeu, à sombra de Passos Coelho que continua a deambular por aí, quer no inerente à viabilização de futuros orçamentos por parte do Partido Socialista e/ou à Lei Laboral, que supostamente, poderá deixar 13 mil trabalhadores presos a contratos a termo.
Mas, outrossim, um ano que além dos factos inesperados contam desde já com eventos expectáveis. São os casos dos eventos desportivos como os Jogos Olímpicos de Inverno, entre 6 e 22 de Fevereiro em Itália, país que será também anfitrião e palco dos Jogos Paralímpicos, no decurso de Março. São os casos, igualmente, do Campeonato Mundial de Futebol, a disputar entre 11 de Junho e 19 de Julho, no México, Estados Unidos da América e Canadá, alargado a 48 países, entre os quais Portugal.
Aliás são também inúmeras as efemérides no próximo ano, algumas já mencionadas. Citem-se, no domínio desportivo a medalha de prata de Carlos Lopes nos 10 mil metros, nos Jogos Olímpicos de Montreal, que mudou o desporto português; e entre várias outras memórias, os 50 anos da Constituição Portuguesa e da eleição do primeiro PR após a Revolução dos Cravos , enquanto a nível internacional se destacam os 250 anos da independência dos Estados Unidos da América.
Ademais, o ano de 2026, traz também à colação Guimarães há cem anos. De facto, 1926 foi um “annus horribilis” para a cidade-berço, decorrente do golpe militar de 28 de Maio de 1926, que instaurou a ditadura. Com efeito, nesse ano, entre outras perdas, Guimarães ficaria privado do Regimento de Infantaria 20 e a sua banda musical e renovaram-se os movimentos autonómicos por parte de Vizela, já desencadeados em 1852, aquando da visita da rainha D. Maria II ao “berço da monarquia”. De igual modo, nesse ano, sofremos a ameaça de extinção dos cursos complementares do liceu que se consumaria no ano letivo seguinte e também fecharia o Hotel Toural, mais tarde reaberto.
No entanto, um ano em que Guimarães desceu às ruas a defender os seus lídimos interesses e bairrismo, como ocorreria na grande manifestação levada a cabo na estação ferroviária vimaranense, em Novembro, aquando despedida da popular banda musical do RI 20; ou ainda no comício realizado no Teatro D. Afonso Henriques contra separação de Vizela. Curiosamente, eventos que o Pregão Nicolino da época evoca, sob a pena do Padre Gaspar Roriz:
“Que triste, ó Guimarães, que triste é a tua sorte
Levaram-te a bandeira - horror! - quem tal previra!
E a banda foi tocar para as bandas de Tavira.”
Em 20 Henriques contratou também a sua gestão autárquica, conquistada num misto de mérito e demérito. De facto, após 36 anos de domínio socialista, com altos e baixos evidentes, a Coligação Juntos por Guimarães ascenderia ao poder autárquico, conquistando a maioria absoluta, traduzida na presidência e mais 5 vereadores, com outros cinco edis na oposição: 4 do Partido Socialista e 1 do Chega.
Como é óbvio, ainda é cedo para tecer grandes comentários sobre a atual gestão autárquica, uma vez que a procissão ainda vai no adro, embora o andor já avance noutros ombros. De qualquer modo, para além do seguimento das heranças do mandato anterior, como a assunção da Capital Verde Europeia, as obras nas escolas básicas e secundárias como no Pevidém e na Santos Simões e ainda algumas construções e reabilitações de unidades de saúde locais, o atual executivo camarário limitar-se-ia a cumprir as normas institucionais, como a aprovação do orçamento, e como é da praxe partidária aconteceriam ainda as habituais nomeações políticas, pontuadas geralmente pela useira cartilha de “jobs for the boys and girls”, muitas vezes sem a devida avaliação do trabalho antecedente e ignorando a distinção entre cargos políticos e técnicos.
Releva-se ainda o anúncio esperado de revisão do Plano Diretor Municipal e a promessa de transportes gratuitos, bem como uma postura de maior populismo, evidente na presença mais carismática em quase todos os eventos concelhios.
Por outro lado, embora o assunto em questão pertença ao domínio do governo central (e quiçá por isso), regista-se também uma certa atitude de política de avestruz e assobiadela para o lado perante o encerramento em Guimarães dos cuidados continuados de longa duração da Santa Casa de Misericórdia e Centro Social de Nespereira, não obstante alguma postura mais incisiva (ainda que apenas parcialmente atendida), no que concerne à recuperação do Alfa Pendular para a capital, que plausivelmente será substituído por mais horários do intercidades.
Que triste, ó Guimarães, que triste é a tua sorte
Levaram-te as camas dos velhinhos acamados
Que agora vão para as bandas de fora, contrariados
Ou ficam nos hospitais, com alta, até à morte ...
E provavelmente não apitará o Alfa Pendular
Mas o intercidades com horário redobrado
Continuarás a ver passar comboios, a abalar,
Ver o Alfa pelo canudo de Braga, conquistado ...
Entretanto 2025 ficaria ainda marcado a nível nacional por vários casos caricatos, muitos a meter a justiça nas bocas do mundo, bem como vários casinhos burlescos e caricatos como o alegado roubo das malas aeroportuárias pelo deputado Chega, ou a presença de Marcelo no Festival Burguefast para supostamenbe comer hamburguers de borla ou à custa do erário público.
Outrossim e infelizmente, um ano assinalado pelo desaparecimento de figuras marcantes como o Papa Francisco e o “papa” do FCP, Pinto da Costa, pelo passamento de escritores como Mário Vargas Llosa e Maria Teresa Horta, futebolistas como Jorge Costa e Diogo Costa, ou ainda homens de grande craveira como os arquitetos Frank Gehry e Nuno Portas, este último ligado a Guimarães. Mas também artistas, entre os quais o pintor Eduardo Batarda, o fotógrafo Eduardo Gajeiro e o músico Luís Jardim. Nomes respeitáveis que partiram, aos quais se ajuntam as sexy-symbols Claúdia Cardinale e Brigitte Bardot, o historiador António Borges Coelho e ilustres personalidades da social-democracia, como Francisco Balsemão e Laborinho Lúcio; e o meu grande amigo e homem bom, de nome António da Rocha e Costa.
Perdas que fazem também relembram à colação o roubo do tesouro de Nossa Senhora da Oliveira há 50 anos (16 de Novembro de 1975) e o belo Café Oriental, que inaugurado em Dezembro de 1925, seria demolido em 1967, para dar lugar a uma instituição bancária.
Assim eram/são os dias que passam e se vislumbraram/ vislumbram os tempos vindouros. De facto, “assim vai o mundo” ....
Deste modo, para 2026, nas passas da passagem de ano, ficam os desejos de mais planeamento e convergências democráticas, menos partidarite aguda e clientelismo, mais avaliação séria, mais resiliência e menos egocentrismo e propaganda populista e demagógica.
Diria, como Marcelo Rebelo de Sousa na sua mensagem de Ano Novo, à laia de despedida, haja “mais saúde, mais educação, mais habitação, mais justiça” …