É preferível falar de Literatura
Volto à literatura portuguesa, certamente mais fecunda e lúcida do que as coisas que grassam pelo burgo, país e mundo. Obviamente, pelo seu poder de verosimilhança didática que nos dá mais esperança do que ler e ouvir a realidade brutal do quotidiano e as novelas da comunicação social, por vezes tendentes transmitir a voz o dono e da acriticidade.
É claro que seguramente poderia falar na passagem de testemunho entre Marcelo e Seguro e fazer balanços positivos e negativos da magistratura presidencial. É óbvio que podia falar nas guerras para a conquista do Nobel da Paz e subsequentemente na tomada das torres do petróleo, como dantes se conquistavam torres de castelos. É evidente que podia até falar no estado da saúde, sempre empurrado com a barriga e outras zonas intestinais, cujas listas de espera em oncologia se estendem agora até à morte, aumentando 4,7% ; ou na crise habitacional, que entre o segundo trimestre de 2024 e o quarto trimestre de 2025 registou um agravamento de 27% ; ou na carestia da vida , da qual Portugal é campeão europeu e cuja inflação é a maior da Zona Euro ; ou da banca portuguesa que é a mais rentável da zona euro em 2025; ou também do facto de cerca de dois meses após a tempestade, ainda haver firmas fechadas e empresários com dificuldades, bem como famílias sem apoios efetivos ...
Simples exemplos, entre muitos, que certamente em nada condizem com a propaganda da família governamental destes dois anos de governo, que consideram que “Portugal é hoje uma referência económica e financeira na Europa e estamos na liga dos campeões da estabilidade económica e financeira”. Ironicamente, uma situação de cofres cheios (!?) até porque os impostos aumentaram contrariamente ao propalado, ainda que com o Zé de calças nas mãos e os bolsos vazios ...
Seguramente poderíamos ainda falar de Abril que começou com a celebração dos 50 anos da Constituição e a voraz hipótese da sua revisão, como de facto fosse uma reforma urgente, quando positivamente a urgência está apenas no seu cumprimento. De facto, como referiria o Presidente da República “não é a Constituição que impede a resolução dos problemas, mas o seu incumprimento”.
Aliás, não é a sua revisão, como igualmente do Código de Trabalho, que preocupa a população, mas os problemas reais, sempre postergados para as calendas, bem como a sua abrangência revisionista e eventual retrocesso nos seus princípios fundamentais, que alguns espíritos revanchistas e afins desejam alcançar. Na realidade, como afirmaria o deputado Paulo Muacho, um sintoma de que “quando os políticos falham isso não é a razão para mudar a constituição, mas para mudar os políticos”
Bem, mas disso e outros temas e assuntos, já os caros leitores leram, ouviram e leram muita coisa, que não podem (nem devem) ignorar.
Mas vamos em frente, apenas com um pequeno desvio a Espanha, nesta pausa pascal, para encher o depósito do carro de trazer duas botijas de gás ...; ou aproveitar a viagem da presidência aberta para visitar o país real, que certamente é bem diferente daquela daquele da primeira presidência aberta de 15 a 25 de Setembro de 1986, em Guimarães, de Mário Soares e certamente menos colorido do que os postais turísticos pretendem vender ...
Mas vamos à literatura, como prometera, até porque para nós o sim é sim!
Com efeito, Março foi um mês de diversas ocorrências literárias, como o nascimento de Raul Brandão, que deixou marcas entre nós, e neste ano celebra 100 anos das publicações “A Morte do Palhaço e “O Mistério da Árvore” e “As Ilhas Desconhecidas”; igualmente, o mês de Camilo Castelo Branco que por cá andou homiziado e noutras andanças e lembranças, deixando-nos na obra “Novelas do Minho”, a bela narrativa “A Viúva do Enforcado”, que tem Guimarães por espaço da ação.
Ademais, Março é o mês da morte do poeta simbolista Camilo Pessanha (1867-1926), ocorrido há 100 anos , como também do Dia Mundial do Teatro (27 de Março), que este ano coincide com os centenários de nascimento dos escritores e dramaturgos José Cardoso Pires (1925-1998) e Luís de Sttau Monteiro (1926- 1993), ambos pioneiros do teatro épico em Portugal, assunto que a União de Freguesias da Cidade evocou oportunamente em opúsculo , no decurso da atribuição anual dos troféus Gil Vicente a Bernardino Pina (TERB) e Celeste Pinto (Osmusiké).
Mas recentemente e infelizmente, ressalta também o falecimento de António Lobo Antunes (1942-2026) e Mário Zambujal (1936-2026), desaparecidos, respetivamente, em 5 e 12 de Março último. Partidas que, apesar de meramente físicas, os mantêm emocionalmente entre “aqueles que por obras valorosas/se vão da lei da morte libertando” ...
De facto, dois bons malandros dos nossos tempos que passaram para a outra banda, legando-nos uma preciosa herança literária, digna de evocação e reconhecimento.
Com efeito, António Lobo Antunes (ALA), escritor e médico psiquiatra, foi um os mais prolíficos homens de letras nacionais. Nascido em Benfica, subúrbios de Lisboa, filho morgado duma família da alta burguesia e benfiquista de gema (segundo alguns o seu maior defeito), ALA queria “ser o José Águas da Literatura”, seu ídolo do futebol encarnado. E realmente seria um dos mais conceituados autores portugueses, com muitos golos marcados nas redes literárias e “um dos escritores mais venerados da Europa”, como referiria “The New York Times”. Na realidade, o único autor português que, após Pessoa integraria o catálogo da Pléiade, tornando-se um dos quatro escritores vivos, conjuntamente com Vargas Llosa, Kundera e Jaccottet, a figurar nesta respeitada coleção francesa. Realmente, um escritor a quem escapou apenas o Nobel da Literatura, mas que colecionaria imensas distinções a nível nacional e internacional, como o Prémio Camões (2007), dois grandes prémios de romance da Associação Portuguesa de Escritores (1985 e 1999), bem como Prémio da União Latina (2005), o Prémio France Culture de Literatura Estrangeira (1996) e Prémio o Melhor Livro Estrangeiro publicado em França (1997), entre outros galardões., condecorações e distinções honoris causa.
No fundo, uma obra traduzida em cerca de 30 línguas, constituída por 41 livros, entre os quais 32 romances, que iniciada com “Memória de Elefante”e “Os cus de Judas”, ambas de 1979, centradas no tema da guerra colonial - que vivenciaria em Angola entre 1971/1973- se prolongaria aos seus últimos livros, como o “Dicionário da Linguagem das Flores” (2022). De facto, a violência e o absurdo da guerra, o fracasso do sonho imperial e os traumas geracionais decorrentes, marcam significativamente uma fase importante da sua obra. Vertentes que perpassam também de forma (auto)-crítica no “Fado Alexandrino” (1983), mais tarde seria adaptado a teatro por Nuno Cardoso; e ainda “O Esplendor de Portugal” (1997) e de igual modo em “ Cartas de Guerra”, (2015), obra epistolar coligida e publicada pelas suas filhas Maria José e Joana a partir de missivas de ALA à primeira esposa, cuja compilação seria também alvo de adaptação cinematográfica por parte de Ivo Ferreira, enquanto histórias de amor e aerogramas saudosos de um país.
Outrossim, ressalta na obra de ALA o retrato de Portugal do seu tempo, desencantado e deprimido, e das suas feridas mais profundas e esconsas, que posteriormente explorariam temáticas como a Revolução de Abril e as transformações sociais resultantes. Narrativas que, como “O Auto do Danados” (1985), aborda a vida de uma família portuguesa em 1975, ou “O Manual dos Inquisidores” (1996), dedicado a Melo Antunes, que retrata a sociedade portuguesa do pós-revolução; ainda, entre outros, “O Esplendor de Portugal” (1997) sobre o colapso do império colonial, com base numa família de colonos em Angola, ou “Exortação aos Crocodilos”, focalizada numa rede bombista de extrema-direita portuguesa. Obras que passam ainda, entre muitas outras, pela navegação às arrecuas d’ “As Naus” (1988), que parodiam os Descobrimentos Portugueses, à laia de farsa anti-epopeia, narrando o regresso à pátria dos nossos míticos heróis como retornados. Um livro que críticos e especialistas consideram entre os mais inovadores, tanto no tema como na cronologia narrativa.
Com efeito, uma prosa que construiu e desconstruiu a literatura portuguesa, alicerçada na polifonia de vozes narrativas e frequentes monólogos interiores, que, como chegaria a confessar o faziam viver “numa permanente guerra civil interior”; ou, como aditaria o seu amigo e escritor José Cardoso Pires. tinha a capacidade de “fintar o real”. Curiosamente, uma escrita que rejeitava o computador, manuscrita como uma força torrencial impetuosa, cheia de frases longas, desvios e retomas, que nem sempre de fácil apreensão pelo leitor/narratário, e frequentemente proporcionava autênticas dores de cabeça para os seus tradutores. Outrossim, uma escrita deambulatória entre razão, memória e deriva sobre a existência humana que o autor comanda com “mão autónoma”, profundamente caboucada na experiência da guerra, formação profissional e Revolução dos Cravos, que em tom intimista e psicológico revela os efeitos da ditadura e (des)colonização nos comportamentos humanos.
Porém, ALA além de romances escreveria ainda excelentes crónicas, em geral publicadas na revista Visão, todas reunidas em vários volumes e até um livro infantojuvenil intitulado “História do hidroavião” (1994), ilustrado pelo músico e amigo Vitorino., mostrando a sua versatilidade.
E mesmo o seu lamento e amargura de não conseguir escrever poesia, a despeito da poeticidade de muitos dos seus livros, em especial “Não entres tão depressa nessa noite escura” (2008), esta “incapacidade” vai ser superada. Com efeito, neste mês de Abril, para surpresa nossa, a editora Dom Quixote anuncia publicação a título póstumo de “Poemas”, de António Lobo Antunes.
Deveras, como dissera ALA, uma superação comprovativa de que “a morte pode destruir-me, mas não me mata “...
Mas de facto, a literatura portuguesa tem dado muito o país, que nem sempre os seus utentes respeitam. Efetivamente, não sendo avessos a alterações pontuais e introdução de novos autores e diversidade de opções, como Mário de Carvalho, António Lobo Antunes ou José Cardoso Pires, entre outros, é preciso que se respeite os mais consagrados, designadamente aqueles laureados com o Nobel, que além de premiados têm valor literário ...
E por falar de Literatura, não se esqueçam neste 25 de Abril, 100 anos depois do 28 de Maio de 1926, que Manuel Alegre faz 90 anos, em 12 de Maio, tendo-nos brindado com mais uma obra recente intitulada “Balada do Corsário dos Sete Mares. Uma obra que volta à navegações e demandas de sempre e aos “Tempos do Avesso” e desconcerto do mundo de hoje, como os poemas “Gaza” e “Míssil” dilucidam:
“Uma criança com um tacho na mão “O míssil caiu aqui no meio da página
queria um pouco de pão matar a fome Trouxe ruínas destruição e morte
ficou um corpo tombado no chão prédios em chamas
um tacho vazio uma criança sem nome.” lágrimas de dor e de revolta
enquanto as sirenes se ouviam em Kiev.”
Seria bom que ainda houvesse memória ..