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O sermão do Pelote

Álvaro Manuel Nunes
Opinião \ terça-feira, julho 26, 2022
© Direitos reservados
Esta evocação, que se manteria em Guimarães apesar do domínio filipino, constava na altura de uma procissão pelas ruas da vila e a celebração de uma missa, no altar do Padrão da Senhora da Vitória.

Em 1638, cerca de dois anos antes do marcante episódio histórico da restauração da independência, ocorrido no Primeiro de Dezembro de 1640, o franciscano Frei Luís da Natividade, guardião do Convento de São Francisco, em Guimarães, seria o orador do célebre Sermão do Pelote, que era costume ser proferido em 14 de agosto, em evocação da data histórica da Batalha de Aljubarrota, em 1385.

Esta evocação, que se manteria em Guimarães, apesar do domínio filipino (1580-1640), constava na altura de uma procissão pelas ruas da vila e a celebração de uma missa com sermão, rezada habitualmente no altar então existente no Padrão da Senhora da Vitória.

Ora, nessa cerimónia religiosa e patriótica, era costume o pelote ou loudel do rei D. João I ser exibido publicamente. Com efeito, esta peça de vestuário de proteção, geralmente acolchoado, que o rei usara debaixo da armadura, havia sido ofertada pelo Mestre de Avis a Nossa Senhora da Oliveira, em devoção e promessa pela vitória em Aljubarrota.

Ora, este pelote, que ainda hoje se conserva como um precioso tesouro do Museu Alberto Sampaio, era obviamente uma forte peça simbólica da luta da independência portuguesa perante os castelhanos, na segunda metade do século XIV, que certamente estes prefeririam olvidar.

Porém, corajosamente, e perante o povo e as autoridades pró-castelhanas, Frei Luís da Natividade não se fez rogado na sua prédica. Deste modo, apontando solenemente em direção ao pelote, proclamaria:

“Para bem saberdes quão perdido temos o reino, olhai para este retrato dele e vê-lo-eis bem pintado (…) O Reino que nessa roupa do invicto Senhor D. João nosso rei dedicou e sujeitou à Virgem da Oliveira, quando o vedes em tal estado, nele vedes também qual esteja o Reino.

Vejo-vos, pelote, velho e roto: vejo-vos atravessado com a vossa própria lança (…) Só me resta para consolação ver-vos diante da Virgem da Oliveira, que se uma vez vos livrou da morte, vos pode ainda ressuscitar a nova vida.”

O pelote era assim usado, em linguagem metafórica e revolucionária, como um símbolo metonímico de um país roto e velho que carecia de fazer ressurgir e levantar novamente os seus valores de coragem e de liberdade, como outrora.

Um país que, acrescentaria, necessitava de rejuvenescer, tal como acontecera em 1342, aquando do milagre da Oliveira, que apesar de ressequida voltaria a vicejar, quando ali foi colocada a cruz do Padrão de Nossa Senhora da Vitória.

Assim, direcionando a sua oratória para a oliveira, pregaria premonitoriamente:

“Ainda pode haver vida para vós, ainda pode haver século florente, e tornardes neste a reverdecer, como essa (oliveira) reverdeceu ficando duzentos e cinquenta anos a esta parte sempre verde (…)

Mas se quereis que viva, floresça, seja sempre verde, conservai-lhe a esta oliveira as suas folhas, sua autoridade, seus foros, suas liberdades, seus privilégios (…).

Frei Luís da Natividade não podia ser mais direto e hábil neste sermão, autêntico símbolo e pretexto de pregação visionária da libertação e restauração da independência, perante o domínio espanhol e filipino. Claramente, a oliveira e o pelote assumiam, de forma insurgente,  uma dimensão incitadora e épica de uma nova vida, politicamente livre do jugo castelhano.

De facto, um sermão parenético de cariz barroco, que assente na prédica antitética entre os tempos passados (gloriosos) e os tempos presentes (deploráveis), tendo como ponto de partida a dimensão polissémica do pelote (Portugal), adjetivado de roto, pobre a alanceado, contraporia à ideia de reino perdido a visão profética de um Portugal restaurado.

Outrossim, um hábil e pragmático aproveitamento da celebração religiosa e patriótica para consciencializar os ouvintes da situação intolerável do reino e obviamente estimular à alteração de conduta e à ação, que curiosamente sucederia dois anos depois… 

Camilo Castelo Branco consideraria (mesmo) que este “Retrato de Portugal Castelhano” , assim ficaria conhecida esta pregação, era “o melhor sermão em português que conhecia” Uma notável peça de oratória que no “Congresso Histórico de Guimarães e sua Colegiada”,  ocorrido aquando do 850.º aniversário da Batalha de S. Mamede (1128-1978) seria motivo de uma excelente intervenção por parte do historiador e professor universitário João Francisco Marques, que pode ser lida detalhadamente no volume alusivo às comunicações.

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