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O Valentim vimaranense

Álvaro Manuel Nunes
Opinião \ quarta-feira, fevereiro 14, 2024
© Direitos reservados
Um homem de formação germânica e grande capacidade de trabalho, dotado de vasta cultura e vontade férrea, atento aos novos horizontes musicais europeus, que tudo fez para levar a música a todos.

O vimaranense Bernardo Valentim Moreira de Sá (VMS), nascido em 14 de Fevereiro de 1853,  filho do Juiz de Direito Francisco Joaquim Moreira de Sá e de Eduarda Emília Borges Carneiro, batizado na Igreja Real de Nossa Senhora da Oliveira, foi um dos mais conceituados músicos, concertista e maestro, que além de professor se consagrou como exímio violinista. Falecido no Porto em 2 de Abril de 1924, já lá vão 100 anos, evocamos aqui e agora o seu grande legado, afirmado desde os tempos de menino e moço.

Com efeito, Valentim precocemente mostraria os seus talentos. De facto, logo aos 7 anos faria a sua apresentação pública com o seu irmão Félix, na presença do rei D. Pedro V; e dois anos mais tarde, atuaria num 1º. Concerto no Teatro de S. João, no Porto, em cuja cidade se instalaria e constituiria carreira.

Efetivamente, logo após a inscrição em Medicina em Coimbra, em 1870, curso que viria a abandonar por falta de vocação, VMS mudar-se-ia para o Porto, frequentando aulas de música com o violinista austro-húngaro Joseph Joachim. E aí, na Cidade Invicta, logo em 1874, fundaria a Sociedade dos Quartetos, que daria início a uma carreira meteorítica, conducente a projetá-lo por vários países da Europa e da América, quer em concertos quer em palestras.

Mais tarde, após o casamento em 1876, com Felicidade Nogueira Molarinho, (irmã do célebre gravador José Arnaldo Molarinho), ocorrido na Igreja Românica de Cedofeita, matrimónio do qual nasceriam 7 filhos, dois deles falecidos ainda crianças, Valentim daria início à sua atividade artística que paralelamente conjuga com a sua atividade pedagógica.

Efetivamente, a Sociedade dos Quartetos, constituída com amigos, seria o início da atividade artística, com o objetivo de propagar o gosto pela música clássica, por meio de concertos e sessões musicais realizadas aos domingos de tarde no Teatro S. João. Uma iniciativa que se prolongaria por cerca de 9 anos e que atraía a estes espetáculos musicais a população portuense, apresentando um vasto reportório musical compreendendo Haydon, Mozart, Beethoven, Schumann, Mendelssohn, Schubert, Brahms e Rubinstein, entre outros nomes famosos da época.

Seguir-se-ia, a Sociedade de Música de Câmara que receberia a adesão entusiástica do público portuense e que em 1884 seria convidada pelo rei D. Luís a tocar em Lisboa, no Teatro S. Carlos. Uma atuação que culminaria com a atribuição da Comenda de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa a VMS, modestamente declinada, ao que se crê, devido às suas convicções republicanas e maçónicas, evidentes na sua adesão à Loja “Ave Labor” com o nome simbólico de Beethoven.

Na verdade, imparável no seu propósito de divulgação da música de câmara, pouco ouvida na época, VMS criaria ainda o Quarteto Moreira de Sá que acrescentaria ao seu reportório compositores como Tschaikowsky, Bach e Viana da Mota, cujas exibições seriam referenciadas elogiosamente pela imprensa desse tempo. Curiosamente, um quarteto que em 1991, contaria com a colaboração de Guilhermina Suggia, com apenas 15 anos.   

Como é óbvio inúmeros seriam os concertos, muitos deles com a cumplicidade amiga de Viana da Mota, que além do Porto e Lisboa se deslocariam em várias tournées pela América Latina, em especial no Brasil, cuja imprensa o considerou “um artista de fina sensibilidade (…) de um espírito superior, aparelhado numa ilustração pouco comum e dotado de alta compreensão do sentimento humano”.

Realmente, dotado de grande sensibilidade artística e humanística, VMS esteve ainda presente em diversos concertos de beneficência e colaborativos com outros músicos e colegas.

Paralelemente, afirmar-se-ia como chefe de orquestra, tendo realizado cerca meia centena de concertos à frente da Orquestra de Amadores do Orpheon Portuense, que além de compositores consagrados a nível internacional interpretaria pela primeira vez a sinfonia “À Pátria” de Viana da Mota.

Concomitantemente, dirigiria ainda no Teatro Águia de Ouro cinco concertos com a Associação Musical de Concertos Populares, constituída por vários professores portuenses e exerceria a direção artística da Associação de Classe Musical de Instrumentos de Arco do Porto. 

No entanto e paralelamente a este relevante papel artístico é ainda de sobrelevar a sua atividade pedagógica. Ora, nesta vertente, VMS marca presença de destaque na criação, em 1881, do Orpheon Portuense, que dirige durante 43 anos, até ao fim da sua vida

Seria também importante a sua ação pedagógica, em particular na Escola Normal do Porto. Ali exerceria funções, desde a sua fundação, em 1882, lecionando Português, Francês, Matemática e Canto Coral e de diretor da escola. Uma atividade exercida ao longo de 33 anos que em 31 de Maio de 1902, na véspera da sua partida para o Brasil, mereceria uma homenagem de surpresa por parte dos seus alunos, que muito o estimavam.

Porém, a sua dedicação ao ensino e aos discentes, estender-se-ia na elaboração e edição de  manuais escolares em áreas tão diversas como a aritmética e a geometria, as línguas e a correspondência e contabilidade. Obviamente, domínios do conhecimento a que acrescentaria a música, publicando um Compêndio de Música e obras sobre solfejos, cantos escolares e técnicas instrumentais como a rabeca.

Ademais, em 1917, VMS seria nomeado diretor do Conservatório de Música do Porto, apoiado pela comunidade musical e Viana da Mota, que “pela sua erudição artística, pela sua larga experiência , pela sua energia e pelo seu caracter retíssimo”, o consideraria o homem ideal e que  consensual para a tarefa. Aliás, fora já nomeado pelo governo para fazer parte da comissão de reformulação do ensino de música em Portugal, o que abona do seu prestígio.

Ora, VMS não desiludiu a confiança depositada e levaria a cabo um trabalho notável em mais esta missão, colocando sempre a música no topo da sua ação, pois, como diria na sessão inaugural de 9 de Dezembro de 1917, “ a música tem todos as vantagens da linguagem, porque é um modo de expressão tão notável como a própria fala.” Realmente, quer nas funções diretivas ou como docente das disciplinas de Estética e Harmonia, quer como organizador de várias sessões de música de câmara e conferencista, VMS mostraria todo o seu empenhamento e saber, não obstante uma sindicância, pretensamente baseada em irregularidades de funcionamento, o ter levado a pedir a demissão, em 1922.

Entretanto, em paralelo, o músico vimaranense, acabaria também por lecionar aulas articulares de violino e piano, que formariam muitos músicos com carreira profissional posteriormente estabelecida.

Além disso, um outro apreciável trabalho seria encetado no Orpheon Portuense, entre 1881 e 1924. Com efeito, iniciando-se como uma sociedade coral de amadores, a instituição viria torna-se uma das mais fecundas no domínio da cultura musical de Portugal, com objetivos claros de propagar e desenvolver o gosto musical, designadamente na apresentação de música coral, conferências e preleções musicais e salvaguarda do espólio arquivístico e bibliotecário. No fundo, mais de 40 anos de trabalho traduzidos mais de uma centena de concertos e mais de seis centenas de corais, instrumentais e orquestrais, muitos dos quais desconhecidas no nosso país. Como não bastasse e em paralelo, seriam trazidos ao Porto imensos e grandes intérpretes estrangeiros da época, para gáudio dos melómanos portugueses.

Após a sua morte, em 1924, a instituição seria dirigida pelo seu genro Luís Costa, que daria continuidade ao seu trabalho e posteriormente orientada pela sua neta Helena Sá Costa, prestigiada pianista e concertista.

Obviamente, como musicógrafo, VMS é ainda autor de muitos artigos dispersos em vários jornais e revistas, bem como importantes e diversas obras escritas, várias das quais publicadas pela Casa Moreira de Sá, editora propriedade do autor.

Este é o homem e vimaranense que toponimicamente está evocado no Largo Valentim Moreira de Sá, contíguo ao Toural, uma denominação proposta em 1953 pelo vereador da Câmara Municipal de Guimarães Manuel Alves de Oliveira. O seu nome seria ainda atribuído à Academia de Música Valentim Moreira de Sá, do Conservatório de Música de Guimarães, homologada pelo Ministério da Educação em 1994, entidade que no seu primeiro aniversário homenageou o patrono em 1 de Abril de 1995, numa sessão realizada na Sociedade Martins Sarmento, que contou com a participação das suas netas: a pianista Helena Moreira de Sá e violoncelista Madalena Moreira de Sá.

Polémica é no entanto a sua participação em espetáculos públicos em Guimarães e o seu local de evocação e memória. Com efeito, de acordo com a revista Gil Vicente, Moreira de Sá “correu o mundo em concertos, mas, em Guimarães, só tocou uma vez!!! Tinha 9 anos …” . Todavia, esta opinião entra em contradição com a proposta apresentada para a sua consagração como sócio honorário da Sociedade Martins Sarmento, redigida por Avelino Guimarães, em 1981,  uma vez que nela consta que “abrilhantou, como violinista … espetáculos públicos em benefício da Sociedade Martins Sarmento” e ainda que “a Assembleia Geral resolveu na sua sessão de 4 do corrente mês distinguir V. Exª. pelos seus relevantes serviços à Sociedade e à Instrução Pública.”

Outro aspeto controverso tem a ver com o seu local de evocação e memória. De facto, não obstante ter sido colocada uma placa evocativa na Rua de Camões, no solar familiar e brasonado onde viveu a sua infância, que seria instalada pela Câmara Municipal de Guimarães, em 20 de Maio de 1937, tudo leva a crer que VMS teria nascido na Rua da Tulha, nº. 94, uma casa que terá sido demolida.   

Contudo e de facto, VMS seria homenageado na sua cidade em 20 de Maio de 1937, numa sessão que partiria da Sociedade Martins Sarmento e se deslocaria até à Rua de Camões, que contaria com a presença da sua família e da Câmara Municipal, representada por A. L. de Carvalho. Uma homenagem que se prolongaria nessa noite, na Sociedade Martins Sarmento, na qual o capitão Mário Cardoso   e outros oradores convidados procederiam à apresentação bibliográfica e elogio evocativo do homenageado.

Em conclusão, um homem de formação germânica e grande capacidade de trabalho, dotado de vasta cultura e vontade férrea, atento aos novos horizontes musicais europeus, que tudo fez para levar a música a todos, enquanto manifestação cultural capaz de ser cultivada e fruída.

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