Raul Brandão - duas obras centenárias (II) - A morte do palhaço
Publicada em 1926, há 100 anos, a obra citada em epígrafe é outro dos livros centenários brandonianas que resulta da refundição da “História de um Palhaço” - Vida e diário de K. Maurício” (1896).
Uma obra que, como noutros romances do autor, não se verifica a uma estrutura rígida e clássica do romance, uma vez que não encontramos propriamente uma intriga organizada com princípio, meio e fim. De facto, o interesse da obra está sobretudo no estudo das personagens que são ricas e complexas, bem como no seu carácter expressionista. Com efeito, o expressionismo, enquanto movimento surgido na Alemanha no início do século XX é evidente nesta obra, uma vez que se foca fundamentalmente na expressão subjetiva dos sentimentos e emoções, mais do que a representação objetiva da realidade. Deste modo, perpassa o pessimismo e a frustração, os desabafos para angústias existenciais, bem como as críticas sociais, que são evidentes nas seguintes características específicas:
- a subjetividade, dando prioridade à visão interna e emoções sobre a observação externa;
- a deformação da realidade, dando primazia a formas retorcidas ou exageradas para transmitir a angústia, o medo e a dor;
- os temas sombrios, como a exploração da sociedade, a miséria, o macabro e o perverso;
- as cores intensas e agressivas, ou seja, cores vibrantes e contrastantes, que não correspondem necessariamente à realidade, focando o impacto emocional.
Deste modo, mais do que a vida circense, a obra debruça-se sobretudo sobre o circo da vida, na qual o Palhaço assume particular protagonismo. Uma personagem marcada pela sensibilidade, desequilíbrio e incapacidade de se realizar, tímido e arredado da própria realidade da vida, absorto no sonho e, contraditoriamente, temendo a morte e desejando-a com mesma sinceridade.
Uma ser desgraçado e pessimista, profundamente humano, honesto e sonhador que questiona a sua existência e condição, que apenas vivencia o amor experienciado em sonho. Deste modo, uma personagem desconectada da realidade, refugiando-se no mundo da fantasia, pois a realidade era dura e cruel.
No entanto, uma personagem com baixa auto-estima que inspira compaixão, com a dor de amar e não ser amado; e um ser marcado pelo sofrimento por não poder realizar os seus sonhos. Ademais, uma personagem realista e trágica, cujo trabalho é transmitir alegria aos outros, embora sem capacidade de sentir alegria.
Mas o Palhaço é tão somente uma das personagens que habita a Casa de Hóspedes da Dona Felicidade. Realmente, ele é apenas um, entre outros hóspedes que “tinham chegado ao fim da vida” - e “usados pela existência”. De facto, nesta hospedaria, convivem ainda um doido, porta-voz do niilismo do autor, que faz a a apologia do carpe diem; e em especial o Pita, “um homem de barba hirsuta e olhar vivo” que “andara sempre aos pontapés de toda a gente e se dava com a ralé”, que vivia à custa de mulheres. Anarquista, com “ódio aos ricos”, meio filósofo, meio ladrão, Pita denuncia o desaforo da burguesia e a exploração (“sabe que em Setúbal, nos arrozais, para ganhar apenas o pão negro, mulheres trabalham na água como bestas, até cortarem pelas virilhas? Sabe que há pequenas de oito anos, que chegam à sua beira com um ar de vício e têm esta frase trágica: Eu faço tudo!”).
Uma personagem com “festos de profeta” eloquente e “rasgos de visionário”, a que se ajuntam ainda a velha, que só “saía de noite” e “rodava nos sítios escusos à espera duma aventura de amor”, o Gregório, antigo chefe de repartição, acamado e posteriormente falecido e obviamente a dona Felicidade, proprietária da hospedaria, que provavelmente não seria tão feliz quanto o seu nome indicia.
Ora, é neste contexto da Casa dos Hóspedes que se mede a vida, centrada no eixo e binómio Sonho/Realidade. Efetivamente, das conversas com o Pita “o Palhaço saía sempre com a cabeça cheia de fantasia e com um sabor amargo à vida” e se assume claramente que a vida é uma convenção e “o sonho é a única realidade (...) tão necessário pr’a vida como o pão”. Ou, como se concluiu “a verdade amarga e única é esta: é que na vida é preciso sonhar, para não se morrer transido, tantos os pontapés que a gente leva na alma e noutra parte”.
Conversas de hóspedes companheiros da desgraça, que numa hospedaria ironicamente pertencente a “Dona Felicidade” revelam a infelicidade, e carpem a efemeridade da vida, bem como a visão antitética da vida terrena e do além, focalizada na vida religiosa e desigualdades sociais e: “O ódio contra os ricos, os que gozam enquanto as mais criaturas sofrem, existia, mas havia a certeza de que iam para o inferno”.
Paralelamente, o mundo circense abre outro espaço e espetáculo da vida de “um pobre palhaço de circo”. Mas, de novo o binómio sonho (de ser um grande ator) e a realidade (ser uma figura grotesca) se abate. Depois, como não bastasse, surge a bela Camélia como personificação do sonho. E o palhaço “pôs-se a amar Camélia, mas nunca disse a ninguém, porque morreriam a rir do Palhaço”. Ademais, “Camélia não o podia amar, e nem ele se atrevera a dizer-lhe a sua paixão. Antes queria viver arredando a realidade (...) Sonhar ainda, sonhar sempre”, refugiando-se no seu diálogo interior com a dor: “És um desgraçado (...) Tu não tens pena de ti? ... Grotesco, velho, servido - ninguém pode ao ver-te deixar de rir (...) Fazes piedade! Quiseste fazer rir e agora fazes rir. Viveste de sonho, tentas voltar à realidade - e a realidade atira-te para o sonho” (...) Palhaço! Palhaço! a tua vida foi um sonho - agora sonha! Quem se habitou a sonhar, tem de sonhar sempre, de se fechar por dentro com o seu sonho, para fugir à realidade”.
O Palhaço recorre então os conselhos de Pita, homem experimentado em mulheres, a quem confessa o seu amor. Todavia, este é perentório quanto ao poder do amor: “amar uma linda mulher ou amar uma ideia, amar seja o que for a valer na vida, é um bordão a que nos apegamos e que nos ajuda a caminhar até à velhice”. Porém, o Palhaço confessa que nunca foi amado (“Passei a vida a sonhar que era amado e nunca fui amado!”) o que leva Pita a tratá-lo como um desgraçado e a incentivá-lo a procurar a prostituição a ilusão do amor, que “por momentos farão a primavera no boeiro negro vida da tua alma”. Pita, solidário e anarquista comunga assim com o amigo e confidente os dissabores da vida: “como tu, como eu, vivem sobre o desprezo público, cuspidas pelos ricos, e, no entanto, sofrem, são curiosas dignas de piedade humana”.
O Palhaço sabe, porém, que o seu amor não será correspondido e perder Camélia seria pior que a morte. Pita aconselha então o Palhaço a morrer por ela: “Mata-te - porque morres em estado de graça (...) Imagina a tua alma acompanhando-a para sempre - até nos momentos mais secretos”.
O palhaço regressa então ao espetáculo do circo e da vida, acompanhando na arena uma exibição acrobática e equestre da esbelta e e loura Camélia, que empolgaria a assistência com “alegria e um pouco de ritmo e de sonho, para esquecer o negrume da vida”. Porém, Camélia ri-se da sua exibição de rojar-se a seus pés, amoroso e cómico. Deste modo, com a raiva à flor da pele, o Palhaço corta então a corda do trapézio de Lídio, namorado de Camélia, que atuaria de seguida. E entra de novo em cena aos saltos e gritos, questionando o público:” um palhaço não tem direito ao amor, embora seja belo por dentro e a alma se lhe abrase um amor? (...) não tem direito de ser amado?
Todo o circo desataria à gargalhada, enquanto ele continuava a gritar “Amar ou morrer! Mas ninguém o tomara a sério, exceto Camélia que finalmente o compreenderia e responderia “Amar! Amar!”
Mas era tarde O Palhaço subira então a corda do trapézio e “devagar, segurou, pela parte superior, o trapézio, tecendo com os braços a vida para Lídio, que logo desceu, quase inerte”
Lídio salvara-se, mas o “Palhaço estoirou na arena, grotesco até na morte”.
Entretanto, “a multidão entendendo que tudo aquilo era uma farsa de génio, sacudiu-se na tempestade estrondosa do riso”.
Era a última farsa ...
O palhaço representa assim o “espetáculo desdobrado da vida”, o homem destroçado e incapaz de materializar o sonho, que sofre com a realidade que morreria sem ser amado, mas morreria a amar ...