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Raul Brandão: 30 anos da Biblioteca e 155 do seu nascimento

Álvaro Manuel Nunes
Opinião \ sábado, março 12, 2022
© Direitos reservados
“O passado sábado, dia 7 de Março do ano da graça de 1992, foi um dia de excelência para a Cultura em Guimarães, de transcendência singular”.

Este texto, publicado no Notícias de Guimarães de 13 de Março de 1992, sob o título “Cultura com sinal mais em Guimarães”, reporta o ato inaugurativo da Biblioteca Municipal Raul Brandão, que na altura contaria com a presença do Subsecretário de Estado da Cultura Sousa Lara e do Presidente da Câmara Municipal António Magalhães, a quem caberia dar continuidade e conclusão aos trabalhos iniciados sob a presidência de António Xavier, em 1987.

De facto, “o milagre aconteceu” nessa data, há 30 anos atrás e mereceria grandes parangonas jornalísticas, como do Comércio de Guimarães de 12 de Março, que titula “Biblioteca já temos – Venha o Tribunal de Trabalho”.

De facto, quando se comemoravam os 125 anos do aniversário de Raul Brandão, seria também inaugurada a Biblioteca homónima, após uma notável recuperação do prédio da Casa dos Caneiros, ali na nobre praça do município, defronte ao edifício da Câmara Municipal. Uma inauguração que seria também destacada pelo semanário vimaranense “Povo de Guimarães” de 13 de Março de 1992, que transcreve as palavras proferidas pelo representante do governo:

“Cumpre-me saudar a Câmara Municipal de Guimarães e o seu Gabinete Técnico pelo magnífico trabalho realizado, que permitiu a adaptação do imóvel onde se sediava uma antiga Casa de Lavoura (…)

Longínquo de opções morais, filosóficas e políticas do autor de “ A Farsa”, “Os Pobres”, “Húmus” e “O Pobre de Pedir”, curvo-me perante a memória do historiado, novelista, e psicólogo que escreveu “El-Rei Junot” e “A Conspiração de 1817 – Gomes Freire”, pois é nestas obras e nas suas “Memórias” que, em meu entendimento, o escritor se revela mais criador, apesar das incompreensões das críticas que certos técnicos de História intoleravelmente lhe dedicam.

A cultura tem de continuar como o ponto de encontro dos portugueses, enriquecida pela divergência de opiniões, mas dinamizada por um espírito de querer construir e de querer ir mais além”.       

Ora, seria também por querer ir mais além, que Santos Simões aproveitaria o ensejo e não se faria rogado a acrescentar algo mais. De facto, como escreveria o citado “Comércio de Guimarães” de 12 de Março de 1992 “também o Dr. Santos Simões aproveitou para falar de Raul Brandão e da Casa do Alto, em Nespereira, fazendo, aí mesmo, entrega ao Subsecretário de Estado da Cultura, de uma cópia de um dossier que visa transformar aquele casarão em casa de turismo de habitação e museu”

Um dossier que lamentavelmente não teria pernas para andar, como hoje bem sabemos, a despeito da luta encetada por Santos Simões …

Já no que concerne ao programa inaugurativo da Biblioteca Raul Brandão, iniciado no domingo de 8 de Março de 1992 com um Recital de Canto e Piano, prosseguido na segunda-feira com visitas guiadas ao edifício, dedicadas às crianças do concelho, estender-se-ia até ao início de Abril, com um vasto leque de iniciativas culturais. Deste modo, filmes, colóquios e apresentações de livros, entre outras iniciativas, teriam lugar no edifício. Entre outras, a apresentação do livro “Antologia da Poesia Infantil “, com poemas selecionados por Sophia de Mello Breyner e desenhos de Júlio Resende, a apresentação do último livro de António Torrado, ou a conferência “Raul Brandão, o escritor e a obra” por David Mourão Ferreira. Paralelamente, decorreriam sessões nas escolas concelhias com a presença de escritores convidados, sessões de teatro infantil, teatro de fantoches e da peça “O Doido e a Morte” de Raul Brandão, que também seria motivo de uma palestra por parte de José Oliveira Barata.

Um programa em cheio e digno do momento …

Mas, na altura ocorreram também casos caricatos, como o menciona o citado “Comércio de Guimarães” , no subtítulo “Foi pena”:

“Muitos convidados só viram duas salas porque se fazia tarde e muitas pessoas desejaram ouvir, pela rádio, o debate ente Fernando Alberto e Pimenta Machado”…

Igualmente, neste ano de 2022, nos 155 anos do nascimento de Raul de Brandão, (em 12 de Março de 1867) e nos 30 anos da inauguração da Biblioteca, decorrerão também certamente a devidas evocações de ambos os eventos.

Ademais, porque este ano perfazem também 70 anos da morte de Teixeira de Pascoaes, amigo íntimo de Raul Brandão. Com efeito, ambos escreveriam em parceria a peça teatral “Jesus Cristo em Lisboa” e conviveriam assiduamente, na Casa do Alto, em Nespereira e no Solar de Gatão, em Amarante, quer visitando-se amiúde quer trocando cartas entre si, epistolário este compilado na obra “Raul Brandão – Teixeira de Pascoaes, Correspondência”.

Como também faz 100 anos que a refundição da “História de um Palhaço” de Raul Brandão foi publicada na centenária revista “Seara Nova”, na qual Raul Brandão colaborou ativamente, e que curiosamente tem patente uma exposição itinerante que anda a percorrer o país.

De facto, há que manter vivos “todos aqueles que por obras valerosas/se vão da lei da morte libertando”.

Por isso, em 2023, é preciso preparar com a devida antecedência o centenário do nascimento de J. Santos Simões, que tão intensamente manteve vivos Raul Brandão e Gil Vicente, entre nós, nomeadamente ao serviço do Teatro de Ensaio Raul Brandão. Tanto mais que em 2023 perfazem também 100 anos da publicação de “Teatro” de Raul Brandão, que engloba as peças “O Gebo e a Sombra”, “O Rei Imaginário” e o “Doido e a Morte”. Centenário a que outrossim se ajunta a obra brandoniana “Os Pescadores”  e os quinhentos anos d’“A Farsa de Inês Pereira” , de mestre Gil Vicente”.

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